Rubem Penz

Sabe o João Cardoso? É um personagem dos “Contos Gauchescos” de Simões Lopes Neto, autor falecido faz 100 anos. E sua história é muito divertida. Resumidamente, ele tinha um rancho a beira do caminho e, aos passantes, convidava para entrarem oferecendo um mate e sombra ao cavalo. Bom de papo, o anfitrião buscava saber das novidades. A graça está no fato de que, mal o visitante se acomodava, João Cardoso gritava para dentro pedindo o mate, que demorava. Quando a visita, no adiantado da hora, ameaçava ir embora, ele reagia pedindo que esperasse: havia o chimarrão. Gritava para dentro outra vez e, lá de dentro, vinha um segredar ao patrão que não tinha mais erva. “Traz dessa mesmo. E não demores, crioulo!”, dizia em voz alta, para mais dedos de prosa. E isso se repetia a cada ameaça de partida até, por fim, o gaúcho ir-se embora de vez sem que o mate fosse servido.

Lembrei desse causo vendo as campanhas dos nossos candidatos ao Paço Municipal. Todas elas, sem exceção, nos convidam a sorver belas promessas. Também nos cobram algo: o voto de confiança. Somos seduzidos pela esperança de saborear o bom chimarrão das realizações e, na data aprazada, ficamos com João Cardoso da vez à beira do rancho chamado Zona Eleitoral – a caminho do futuro. E o candidato, agora eleito, olha para dentro e grita: “Traz o mate que eu prometi!”. Mas ele não vem. Quando aparece alguém lá de dentro, é para segredar que não há verba. “Traz dessa mesmo”, renova a esperança. E isso costuma durar quatro anos. Às vezes oito. Doze, 16, 30.

Há um mate chamado revitalização da orla do Guaíba, outro saneamento básico. Nossas crianças em creches, valorização do servidor público, respeito ao cidadão. Obras para um metrô ou, ao menos, uma reforma severa e inteligente para organizar o transporte coletivo. Há também o mate da segurança, tão necessária para que a roda da prosperidade faça a cuia chegar ao pequeno comerciante, ao prestador de serviços, aos estudantes, turistas, a todos. Tudo o que, antes de sentarmos o voto, fora prometido. O problema é que o “crioulo” só vem lá de dentro para dizer que não tem erva. E o porto-alegrense se despede a seco, rumo a novas promessas.

Para quem acha que estou sendo severo, digo: estou sendo severo. E meio desanimado sobre qual João Cardoso da vez receberá os votos para não servir as promessas. Mesmo na teimosa esperança de que eles, contrariando a tendência, saibam provisionar a administração ao menos com uma ou duas cuias do bom amargo. Dizem que o personagem de Simões Lopes Neto existiu de verdade. Já a ladainha dos candidatos, gente, parece sempre mentira.

Crônica publicada no Metro Jornal em 13.09.16

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