Rubem Penz

Sou amigo de muitos engenheiros. Sei como funciona a mente deles: minimizam as falhas de processo na medida em que se antecipam aos problemas, controlam as variáveis e planejam o encadear das ações. Na média, são pessoas mais metódicas, organizadas e prudentes. Quando criativos, os engenheiros podem virar inovadores cientistas; quando perspicazes, magistrais administradores; quando altruístas, artífices de um mundo melhor. Porém, nem mesmo estes homens e mulheres com tantos predicados são imunes ao desânimo, à burocracia e ao caos. Só isso pode explicar o estado das obras viárias em Porto Alegre.

Não estivessem os engenheiros contaminados pelo desânimo, paralisados pela burocracia e submetidos ao caos, a cidade estaria diferente. Afirmo isso sem medo: sei como funciona a mente deles. Um engenheiro em estado normal de saúde e consciência profissional faria uma revolução, um motim diante do que vemos pelas ruas. Se eu noto que as coisas vão mal, imagina um engenheiro!?

Caso pedíssemos para um engenheiro calcular quanto custa por mês ao cidadão o acréscimo de 20 minutos em desvios e engarrafamentos, vezes o número de carros que os contornam por dia, vezes os dias que as obras estão fora do prazo, ele seria capaz de quantificar o dinheirão jogado fora.

Se alguém alimentasse a planilha de um engenheiro com dados médicos informando os índices de mortalidade de um paciente cardíaco ou acidentado na relação com o tempo fora da emergência hospitalar, certamente ele viria com o impacto disso diante de um desvio de 20 minutos em engarrafamentos numa obra estacionada.

Soubesse um engenheiro o quanto representa 20 minutos a menos, gastos num desvio, no exíguo tempo que os pais que trabalham fora têm para conviver com seus filhos, apontaria o montante disso ao cabo dos meses em que uma obra se desligou do prazo. E, mesmo sem ser algo mensurável, indicaria o resultado irreversível em termos de afeto perdido.

As crianças crescem, as pessoas morrem, o dinheiro vai embora e tudo fica por isso mesmo como se isso fosse normal. Mas o caos, burocracia e desânimo não vencerão! Por isso, amigos engenheiros, calculem tudo para mim, por favor. Eu só “acho” absurdo. Vocês podem colocar no colo do prefeito o exato tamanho do absurdo.

Prendamos o grito: Excel ou morte!

Crônica publicada no Metro Jornal Porto Alegre em 07.07.15

Textos Relacionados

Comentar

Your email address will not be published.