Rufar dos Tambores 528

Long Play

Rubem Penz

Em conjunto, pesava. Sozinho era frágil. Não cabia na pasta do colégio, nem na mochila, nem nas bolsas, nem nos bolsos. O normal era carregarmos nas mãos, com cuidado, mostrando a capa para quem estivesse em volta – LP fazia barulho até fora do prato. Capas e encartes, diga-se de passagem, eram verdadeiros outdoors e livros. Como levar essa joia embaixo dos braços implicava riscos (perdão para o duplo sentido), muitas vezes invertíamos o plástico externo para evitar que o disco escorregasse para fora da embalagem. Um LP no chão prenunciava tragédia.

Os mesmos dedos que hoje deslizam nas telas de maravilhas da tecnologia, um dia folharam Long Plays nas lojas da Galeria Chaves. De tanto em tanto, pescavam um disco, trazendo para fora da prateleira. Então, mãos e braços cumpriam uma coreografia idêntica entre todos, sem jamais termos ensaiado: olha a capa, vira o disco, olha a contracapa, lê a lista de temas, a ficha técnica, volta para a capa, repara se está lacrado e lê o preço. Gostou? Separa. Não gostou? Mergulha de volta e retoma a procura.

Chegar com discos novos em casa era um momento especial, único. Primeiro, o silêncio ensurdecedor durante o trajeto, no ônibus, com eles naquelas sacolas bacanas que as lojas davam para nós. Aí a eleição do primeiro. Põe no prato, faixa um, pega o encarte, acompanha a letra, sobe o volume. Momento de dispensar poltrona ou sofá: no tapete, perto da eletrola e das caixas de som, era o melhor lugar de todos. Posição de índio. Rituais. Na infância, não compreendia que minhas manas mais velhas quisessem solidão para esse momento. Depois, entendi.

Em vinte minutos, mais ou menos, chegava o momento de conhecer os mistérios do lado B. As mil hipóteses para conhecer os critérios usados por artistas e gravadoras ao posicionar os temas em um ou outro lado do LP sempre me fascinaram. Fico com uma que agrada: para o lado A, gravetos escolhidos pela produção, fogo rápido, intenso, paradas de sucesso, vendas. Para o lado B, lenha grossa: temas mais complexos, profundos, duráveis; apostas do autor, quando não concessões da gravadora; disco dentro do disco. Lado a lado, no lado B, músicas fadadas ao esquecimento e outras tão boas a ponto de quase ficarem de fora para, depois, se tornarem as prediletas dos fãs – típicas contradições da arte.

Investigando os motivos para lembrar dos velhos Long Plays, dos rituais que nos acompanhavam desde o desejo de comprar até a primeira audição, da peculiar característica de ter dois lados tão distintos, caí no óbvio: minha irrecuperável nostalgia. Alguma coisa se perdeu na pulverização da música em suportes etéreos (não disse estéreos). Mesmo acompanhando o renascimento do Long Play, tenho certeza de que o espírito de outrora não será recuperado. O apego que tínhamos com os álbuns não era cultivado com o caráter de exceção – relação que colecionadores têm com os novos LPs. Hoje, cada disco tem um valor de selo raro. À época, era a maneira corriqueira de todos nós colecionarmos a música – uma relação de afeto, antes de tudo. Sem falar que jamais saberemos, hoje, qual tema o artista colocaria no lado B.

 

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