Número 502

Luz e sombra

Rubem Penz

Aos nove anos, ela só tinha olhos para os meninos que dominavam o recreio – eram bravos, jogavam futebol, zoavam com os colegas e, em alguma medida, maltratavam as meninas. Eles raramente lhe davam muita pelota, mas jamais deixava de mandar bilhetinhos em papel cor-de-rosa, cheios de corações. Enquanto isso, o outro apenas a mirava de longe, sem coragem de puxar uma conversa.

Aos doze, ela descobriu os encantos dos meninos que enfrentavam os professores. Líderes da bagunça, eram destemidos e não baixavam a crista nem mesmo quando eram excluídos da sala. Vivia ajudando um ou outro com os trabalhos e, às vezes, até dava cola nas provas. Não que ganhasse muita gratidão – ao contrário, só lembravam dela na hora de pedir ajuda. Enquanto isso, o outro se sentava na primeira classe e jamais precisou de ajuda para tirar boas notas.

Aos quinze anos, ela descobriu os músicos. Passou a seguir bandas para cima e para baixo quase como fossem profetas. Por pouco não jogou fora o ano no colégio ao perder totalmente o interesse nos estudos. O que salvou foi a ameaça de ser mandada para morar com a avó no interior, caso rodasse. Passou raspando, mas conheceu todos os camarins dos teatros (em detalhes). Enquanto isso, o outro entrou em um grupo de estudos para melhor se preparar para o vestibular. Chegou a convidá-la, mas ela o chamou de maluco.

Aos dezoito, depois de abandonar momentaneamente a entrada na faculdade, ela descobriu as drogas. Primeiro as mais leves, ainda na onda da diversão para animar as raves e os shows. Mas não parou por aí, frequentando o mundo underground da cidade. Praticou pequenos furtos, correu da polícia, colocou-se em risco de vida por diversas ocasiões. Não tomava muitas precauções e fez dois abortos. Enquanto isso, o outro cursava Engenharia e só sabia dela por ouvir falar. Em nada acreditava.

Na maioridade ela deu uma reviravolta na vida: descobriu o Senhor. Passou a ser assídua em uma igreja pentecostal dessas (não me recordo o nome) e entrou numa onda de purificação. Abandonou as drogas, o sexo e o rock and roll (não necessariamente nessa ordem). De Bíblia em punho, desejou converter o máximo de desencaminhados, garantindo ao Pastor que conhecia muitos deles. Enquanto isso, o outro já estava se formando e com a vida bem encaminhada em uma grande empresa onde estagiara, cujo escritório ficava a menos de duas quadras do templo. Logo, se viam com frequência.

Um dia, ela, finalmente, reparou no outro. Lembrou que era o menino tímido que nunca zoava com as meninas. Também o estudante compenetrado, de boas notas e que, um dia, a convidara para estudar junto. Notou sua aparência saudável e a ausência de vícios e culpas. Também viu nele um futuro com a segurança dos compenetrados. Foi quando ele a apresentou para Maria Eliza. E, naquele instante, vendo o tipo de menina que ele escolhera para namorar, sentiu uma dor no coração… Nossa, que tolo: óbvio que era uma bisca e não o merecia.

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