Rubem Penz

Foram as múltiplas atividades culturais do último final de semana o sinal inequívoco de que a cidade retomou sua rotina e, felizmente, sua vocação cosmopolita (ainda que impregnada de um provincianismo sedutor). Dentre tantas, destaco o terceiro encontro em 2014 do Literatura Grande do Sul, ciclo de debates promovido desde o ano passado pela Ages (Associação Gaúcha de Escritores). Sábado passado, Helô Bacichette e Gláucia de Souza abordaram a Literatura Infantil. Parênteses: é sempre estranho falar em Literatura Infantil ou Infantojuvenil, pois isso não é bem um gênero, uma vez que define o leitor, e não a escrita – o que basta para dar muitas linhas ao debate.

As escritoras deram um show e, como síntese do que seria a marca desta linguagem dirigida aos pequenos, ficou a necessidade de o adulto resgatar a espontaneidade da criança que permanece em nós. Brincar com as expressões no sentido amplo, jogar, dialogar, permitir-se. Deixar que a mensagem aconteça sem que carregue o estigma da utilidade pedagógica. E a prova de que isso é possível ficou clara nas leituras feitas e no próprio manejo dos enunciados, quando umas e outros foram iluminados pelo talento. Para mim, o destaque do final da manhã foi a palavra “também”, importante para definir a literatura dita infantil como capaz de atingir o público adulto com igual abrangência e pertinência.

Findo o debate, enquanto as palestrantes recebiam o carinho do público, surgiu como uma coadjuvante de luxo (personagem para servir de escada) a palavra “mas”. Ao apresentar uma moça prestes a lançar o primeiro livro, sua irmã disse que ela desejava ser escritora, “mas” era formada em Direito. Como assim, mas?! – foi o espanto. Nenhuma ocupação adicional é excludente quando se trata de ser ou estar escritor. Em muitos casos, aliás, é muito bem-vindo ter uma profissão paralela e que dê boa renda. De motorista de táxi a professor universitário, escrever será algo casado com o conceito do “também”, e sem qualquer parentesco com o “mas”.

No almoço que seguiu, mas e também voltaram à pauta. Entre nós, foi quase consensual o fato de que escrever é uma constante em pessoas polivalentes – todos à mesa como prova. E pareceu fácil lembrar de outros autores que também são músicos, também desenham, também fotografam, atuam, pintam e bordam. Não pude ir na atividade da tarde: uma oficina literária aberta ao público. Enquanto me despedia, outra escritora, Marô Barbieri, tratou de absolver o “mas” de tantas culpas. Lembrou que lamentável, triste mesmo, é a literatura estar associada à palavra “apesar”. Bingo! Parti sorrindo: provavelmente seguiram com esse jogo de palavras na minha ausência…

Crônica publicada no Metro Jornal em 22.07.14

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