Rufar dos Tambores

Número 220

 

HISTÓRIAS PARA ACORDAR

 

E ra uma vez, num reino longínquo, Mamãe, chefão do morro que o bosque margeia. Um dia, chamou a bela Chapeuzinho Vermelho para sua casa. Precisava alguém de menor para levar a cesta de doces para a Vovozinha, que morava dali distante. A tal senhora já andava doente pela casa, tanta a vontade de consumir uma cocadinha.

 

Mamãe não queria correr riscos. Na Via-bosque, expressa, era constante a presença de Lobos. Por isso, orientou Chapeuzinho a seguir o caminho do rio, “longo, mas totalmente limpo”. Vovó que esperasse. A menina apanhou a cesta e partiu, feliz com o dinheiro por descolar. Cantava:

 

– Pela estrada afora, eu vou, bem sozinha, levar esses doces para a Vovozinha…

 

A pobre Chapeuzinho Vermelho desconhecia até a mais célebre fábula infantil (evasão escolar era comum naquele reino). Então, desobedeceu Mamãe em busca da trilha mais breve. Bem como o previsto, antes da terceira curva, Lobo apareceu. Queria explicações.

 

        Você aí, como se chama?

        Chapeuzinho Vermelho – respondeu, cândida.

        E, na cesta, vai o quê? – perguntou, enquanto erguia o guardanapo de linho com delicadas bordas em crochê azul turquesa.

 

Sem poder escapar da revista, a menina tratou de eximir-se de culpa.

 

        São doces, mas não são meus… Mamãe quem me entregou. Vão para a Vovozinha, doente, coitada.

        Ah, bom! – respondeu Lobo, passando a mão no ombro de Chapéu para uma conversa em particular. – Então vamos fazer um negócio: Me dá o endereço da tal Avó, e eu garanto a passagem. Se lhe abordarem, diz que já falou comigo, ok? E, se Mamãe ligar no meio tempo, fala que encontrou um Lobo Mau e tudo bem. Tudo sob controle…

 

Dito e feito. Chapeuzinho Vermelho seguiu a Via-bosque animada com o salvo conduto que recebera. Porém, a menina ignorava o fato de o Lobo ter se adiantado por um atalho até a casa da Vovozinha. Lá, prendeu-a e armou um flagrante, deitado na cama, fazendo-se passar por Vovó.

 

Como todos já conhecem o diálogo do nariz tão grande, vamos direto ao que ocorreu depois: Lobo Mau, na verdade um Cordeiro disfarçado, anunciou a prisão da menina e apreensão da cesta. Todavia, no instante em que deu o bote, um caçador munido de informações privilegiadas – a serviço de Mamãe – iniciou violenta reação. Na troca de tiros, morreram Chapeuzinho, Vovó e o Porquinho caçula. Bala perdida. Atravessou fácil a parede de palha de sua casa, em arquitetura campestre.

 

Imoral na história: Mamãe não chorou a morte de Chapeuzinho. O caçador sumiu. Nos jornais, sequer foi citado o nome da Vovozinha. Para o Porquinho do meio permanecer tranqüilo em seu sobrado, será necessário blindá-lo, especialidade da firma de engenharia do competente primogênito – Porquinho capitalista, riquíssimo. E, de concreto sobre o episódio, apenas o inquérito para apurar se a bala que alvejou o inocente suíno partiu da arma do Lobo Mau. Digo, do Cordeiro. Até segunda ordem, suspenso.

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