Rufar dos Tambores

Número 270

AS VIÚVAS DE LUIZ FELIPE

Essa história não é minha: um amigo de um amigo (!) disse, certa vez, que preferia se relacionar com as mulheres separadas. Ele, que já não era jovem, evitava a todo custo as viúvas, pois era impossível superar a memória do falecido. Aos ex-maridos, em contrapartida, bastava um beijo mais ardente para estar em vantagem. Lembrei disso quando vi anunciada a saída do Felipão da Seleção Portuguesa, contratado a peso de ouro pelo Chelsea da Inglaterra: não queria estar na pele do próximo treinador desta esquadra, pois o que terá de viúvas em terras lusitanas não será bolinho…

Pode parecer exagero comparar o casamento entre duas pessoas e o consórcio entre treinadores e agremiações. Porém, igual a um contrato de união civil, o relacionamento entre técnico de futebol e clube é algo que sempre extrapola os cartórios ao ser contaminado por implicações passionais. Não é à toa que, ao menos no Brasil, a população vê com muito mais complacência o despir de uma aliança do que uma virada de casaca: no amor às cores não há espaço para traições.

Em ambos os casos, também, fatores externos estremecem os ânimos. Enquanto no casamento existe a sogra, os filhos, o aluguel, a colega de trabalho gostosa dando corda – ou o professor da academia acendendo a imaginação –, no futebol está presente a pressão da torcida, as fofocas da imprensa, o assédio de outras equipes, a posição na tabela do certame nacional etc. Assim, tudo o que poderia ser mais simples, torna-se cheio de conflitos, necessitando muito mais do que o bom e velho respeito mútuo.

Grande parte dos matrimônios de hoje termina em separação judicial. Algumas são consensuais: nada mais dá certo, o distanciamento se tornou intransponível, novos planos apareceram para atrapalhar. Há casos de rompimentos litigiosos, com uma das partes pisando feio na bola. Da mesma forma, na saída dos treinadores acontecem divórcios: os resultados não aparecem, as explicações não convencem mais, o amor acaba. Para o novo marido, esposa ou técnico, basta um buquê de flores, a vitória em um clássico ou aquele prato mais elaborado no jantar para reviver bons momentos.

Mas não é nada disso que ocorre com as saídas de Luiz Felipe Scolari de um time. Mesmo sendo um colorado apaixonado, acompanhei de perto o afastamento deste profissional do clube co-irmão porto-alegrense e garanto: a sensação de viuvez foi alarmante. Amigos tricolores cultivam o luto até os dias de hoje (e lá se vão muitos anos). A volta do Felipão, tida como uma espécie de milagre, significaria o retorno de anos de glória e felicidade perdidos para sempre. Houve outros importantes na vida deles, sim. Mas nenhum como o gringo com estilo paternal.

Então, é esta a bronca que o próximo treinador da Seleção Portuguesa enfrentará. Luiz Felipe não se separa simplesmente de um time: morre uma Era. Junto com ela, ficam as lembranças inesquecíveis e de difícil superação. Não será um jantar à luz de velas, uma goleada de 5X2 ou um bom esquema tático que darão conta. Por um bom tempo – para alguns a vida toda – a comparação será sempre desfavorável. O amigo do meu amigo evitava as viúvas a todo custo. Os profissionais do futebol não podem se dar a esse luxo. Mas que a tarefa é complicada, isso é.

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