Rufar dos Tambores

Número 274

ENSAIO DE SACADA – UMA SERENATA INVERTIDA

A estrutura tradicional da serenata é bastante conhecida: um grupo de músicos se reúne logo abaixo de uma sacada, varanda ou janela para entoar suas cantigas até que a dona da casa – ou sua filha, depende – resolva dar o ar da graça. Depois, diante da dama, e tendo toda a vizinhança desperta e encantada para servir de testemunha, o patrocinador das melodias declara sua grande paixão. Porém, mantendo o tripé música/audiência/motivação, participei de muitas serenatas mais ou menos alternativas, por assim dizer.

Por exemplo, nos veraneios da juventude, das inúmeras serenatas que promovemos em turma, nem todas tinham finalidades assim tão nobres como o amor. Com freqüência arrebanhávamos violão, pandeiro, surdo e tamborim para visitar as casas conhecidas, na alta madrugada, pelo simples prazer de tocar até que as luzes estivessem acesas. Depois, convidávamos o morador a se juntar ao grupo e seguir adiante. Era isso, ou “liberar” um pouco de bebida para os músicos e cantores. Até rolava uma sutil chantagem, cantada com os versos de Antônio Carlos e Jocafi levemente alterados: “Oh dona da casa/ Por Nossa Senhora/ Dai-me o que beber/ Senão não vou embora!” A noite era só alegria. A ressaca da manhã seguinte, por sua vez, uma tristeza. (Alerta: ninguém precisava pegar o volante de um carro!)

Por falar em chantagem, e já abandonando a sutileza, nas noites que antecediam o carnaval recorríamos ao degrau seguinte: o da extorsão. Com a desculpa de afinar a bateria, uma mini-escola de samba vagava pela praia fazendo serenatas em altos decibéis, acordando os amigos para trocar nosso silêncio por uma modesta contribuição em dinheiro. Os fins eram nobres: fundos aplicados na infra-estrutura do bloco carnavalesco. Pensando bem, éramos uns chatos que perturbavam o sossego alheio em proveito próprio. Estranho foi só um de nós ter se tornado político – a “escola” de samba dava a lição tão difundida nas campanhas eleitorais.

Meus pais, certa feita, receberam dos amigos uma emocionante serenata cujo motivo foi lindo como a paixão primeira: eles estavam enfim sós, quer dizer, sem mais nenhum filho em casa para deles depender. Como a minha mãe se emociona até hoje ao contar a história da inesquecível homenagem, creio que foi muito doce o restante daquela noite. Além do mais, as músicas escolhidas nunca mais deixaram de tocar seu coração. Nem sei se os promotores avaliam a envergadura de tão boa ação.

Ainda no campo das boas ações, o que acontecerá neste sábado em casa será um resgate da minha tradição de serenatas praieiras, mas com inovações ainda mais radicais. Inverteremos as posições, deixando os músicos na sacada da frente, enquanto o público se posicionará na calçada. Trocaremos também a madrugada pela tarde de sábado. A iniciativa, que foi batizada de Ensaio de Sacada, é uma promoção dirigida aos vizinhos do condomínio em prol da Campanha do Agasalho 2008. Esperamos usar a música como aglutinador, apostando no inusitado desta situação como chamamento. Incentivamos a todos para virem assistir jazz e bossa-nova trazendo doações de roupas e alimentos para a comunidade carente do município.

Valer-se de apresentações de artistas para causas sociais não é nenhuma novidade. O Sting e o Bono Vox, entre outros, fazem o mesmo, porém com repercussão mundial. Mesmo assim, duvido que algum dólar amealhado nos mega-shows internacionais tenha chegado aqui por perto – mérito que teremos. O singelo Ensaio de Sacada já comoveu a meninada do condomínio, que ajudou em sua divulgação. Espero que mobilize, também, os vizinhos. E que a música aqueça seus corações.

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