Rufar dos Tambores

Número 277

ADVERSÁRIOS

Os Jogos Olímpicos da Era Moderna podem ser considerados uma bela iniciativa de congraçamento e paz. Porém, é evidente que todo esporte carrega no íntimo uma condição de simulacro de guerra, uma pequena batalha simbólica, regrada e controlada, funcionando como vacina contra nosso pendor beligerante. Não fosse verdade, finda a competição, não teríamos vencidos e vencedores. Ou mesmo homens para serem festejados como heróis.

Assim, de modo consciente e planejado, países com ambição hegemônica utilizam-se da festa olímpica como plataforma de propaganda político-ideológica, cultural e, principalmente, econômica. Contabilizam suas vitórias nas pistas, raias e estádios na soma de pontos para o controle da ordem mundial. Medem suas forças homem a homem, transformando o quadro de medalhas em avais para suas posições de dominação sobre outros territórios e mentes. E, claro, faturam os preciosos segundos de exposição global de suas cores, marcas e conceitos. Vencem no esporte como vencem na vida.

Vejamos o caso deste ano, com a China recebendo a oportunidade de ser país-sede. Desde a vitória em sua indicação, ou mesmo antes, o governo chinês trata a oportunidade como uma ferramenta capaz de inserir o país no seleto grupo das superpotências econômicas mundiais. Faz de tudo para provar às demais nações que o gigante, outrora adormecido, despertou outra vez para sua vocação imperial. Lembrando um pouco a intenção nazista dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, ela associa as esperadas vitórias de seus atletas com o futuro êxito nos campos da economia e política mundial.

Mas utilizar o sucesso esportivo como modelo de prosperidade não é algo exclusivo das grandes potências. Basta olhar para o exemplo de Cuba: o pequeno conjunto de ilhas caribenhas transforma seus atletas em garotos-propaganda de sua política social. Mais: o faz com um balanço positivo inegável – desconsiderando, aqui, juízos de valor sobre sua forma de governo. Ao comparar o potencial aporte de riquezas (materiais, humanas e econômicas) de Cuba com o Brasil, nossa tradicional posição hierárquica no quadro de medalhas se torna, no mínimo, vergonhosa.

Por falar em Brasil, ou em sua trajetória no ranking de pódios olímpicos, suponho que, de quatro em quatro anos, perdemos a oportunidade de olharmo-nos no espelho para refletir sobre a pátria amada, idolatrada, salve e salve. Vivendo em um país de dimensões continentais, caldeirão de raças, orgulhoso de sua capacidade criativa de seus ricos mananciais, será que nunca desconfiamos de algo errado no pífio saldo de louros alcançados através dos tempos? Tal imagem negativa é percebida de modo límpido por outras nações. Um recado claro de como tratamos o povo e suas potencialidades. Ou do tempo que falta para deixarmos de ser uma nação subdesenvolvida.

Não quero aqui desqualificar nossos atletas. Ao contrário, para habilitar-se à luta por medalhas de ouro, outras guerras já precisaram vencer: a falta de política esportiva de base e os parcos investimentos em infraestrutura e capital humano. O pior é que os esportistas nem se queixam, pois estão em pé de igualdade com as áreas da educação, da cultura, da pesquisa etc. Depois, caso cheguem ao topo, ainda precisarão lidar com a culpa incrustada por demagogos de plantão, para os quais a elite esportiva nada merece de apoio de uma nação onde há fome – gente que odeia (teme) o sucesso.

Em 2008, a China estará mostrando ao mundo sua pujança. Outros povos desfilarão sua tradicional competência e supremacia. E, nesta guerra metafórica, o Brasil se apresentará com os melhores soldados – na maioria, atletas que ultrapassaram toda a sorte de dificuldades. Dentre eles, alguns poucos heróis vencerão suas batalhas na base da superação. No grito. Sem balas na agulha. Depois, ao retornar com medalha no peito, posarão sorridentes para fotos ao lado dos primeiros adversários que precisaram superar: nossos governantes.

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