PRESÉPIO NÃO TEM SOGRA

Dia desses, com a família, eu participava de um almoço de confraternização natalina entre amigos, quando a conversa fluiu para a tradição à mesa. Não para menos: apreciávamos um magnífico bacalhau na casa de um angolano de nascimento, casado com uma brasileira com raízes igualmente portuguesas. A arte culinária serviu de pretexto para muitas histórias, algumas emocionantes. Ato contínuo, os convivas abriram um tipo de concurso para noticiar especialidades de panela, cada qual fazendo a propaganda de seus dotes. Como não estávamos entre cozinheiros profissionais, muitos dos pratos procediam da singela herança familiar, mantendo a tradição no cardápio. E, quase todos, com receitas passadas de mãe para filha.

Todavia, por mais envolvente que estivesse nossa conversa, faltava para ela algum tempero capaz de transformar o almoço em crônica. Uma angústia chegando a ser indigesta, pois eu sentia no ambiente o aroma de um bom texto. Eu quase o via entre uma baixela com salada e outra de arroz. Escutava-o no tilintar das taças de cristal. Intuía guardado para a sobremesa. Crônica de Natal, conforme meu apetite dezembrino. Ingrediente que chegou, ufa!, com uma constatação lapidar de uma doce senhora que estava entre nós. Dona Terezinha. Pois ela e o marido Édio tiveram apenas filhos homens. Disse, então, e até com uma certa revolta, que desistira de passar suas receitas adiante. Resumiu: não ensino mais nenhum prato para minhas noras – elas modificam-nos.

Soaram os sinos pequeninos, sinos de Belém. Por natais e natais, durante muitas e longínquas eras, foram – são – as filhas mulheres as encarregadas da continuidade do legado materno. A elas cabe o privilégio, o dever e o direito de levar adiante as receitas de sua família. As noras, contaminadas que são por suas próprias influências, destinadas a manter o tempero de suas mães, jamais perderiam a oportunidade de marcar a diferença. Ainda mais que, em se tratando de algo tão íntimo como o alimento, igualar o pudim que fez o encantamento oral do marido em seus anos de infância é impossível. Covardia, até. Por isso, sogras elegantes, justas, jamais deveriam abrir concorrência com suas noras. E noras inteligentes devem estar atentas para essa armadilha.

Imagino, também, que o dilema de dona Terezinha ganhou novos ingredientes com a mudança dos tempos: as moças de hoje brilham – e muito – nas mais diversas áreas do conhecimento. Mas em bom número tendem a ser meio opacas na cozinha, levando à mesa refeições cada vez mais práticas e menos artesanais. Logo, não demonstram o menor interesse em, por exemplo, apurar o molho durante muitas horas, atribuição tranqüila para quem era dona de casa. Por outro lado, em muitos lares, são os rapazes os novos comandantes do fogão. Quem sabe a queixosa senhora esteja perdendo a oportunidade de manter seu legado por não enxergar o óbvio: deve ensinar os pratos de família aos filhos homens! Aqueles mesmos que já transportam adiante a habilidade do pai defronte a uma churrasqueira.

Tudo isso me fez recordar do presépio, uma das mais tradicionais imagens de Natal. Lá estão pai, mãe e criança. Ao redor, pastores e seus animais. Para breve, a chegada dos Reis Magos. Um anjo paira acima da gruta. Zero parentes. E as avós? Não seria o caso de alguma vovó dar uma mãozinha naquele momento tão delicado? Parece, mas não consta nas Escrituras, que ninguém da família de Maria podia acompanhar a moça grávida, quase parindo, na urgente fuga da insanidade de Herodes, o Grande. José, solícito, tratou de convidar sua mãe. Mas ela própria, a sogra da Virgem, torcera o nariz. Desde o advento do Pessach, em que as duas divergiram feio na receita do Charosset, a velha duvidava que Maria fosse assim, sei lá, tão santa.

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2 Respostas

  1. Rubem Penz

    Para constar:
    Ao contrário do que faz crer o final da crônica, não entendo nada de culinária judaica. Tive a consultoria da amiga Denise Elnecave Xavier, craque no tema. Inclusive, ela enriqueceu meus conhecimentos contando que a Santa Ceia foi uma refeição de Pessach.

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