Rufar dos Tambores

Número 331

THE E-BOOK IS ON THE TABLE

Semana passada, enquanto visitávamos a nova morada de uma querida amiga, ao comentarmos as soluções arquitetônicas para mobiliar o quarto de seu filho, mencionamos uma mesa que serve atualmente de escrivaninha para nossa caçula. É um pequeno móvel de aço, desmontável, típico dos anos oitenta. Salvo engano, foi comprado na Tok & Stok – loja reconhecida por sua aposta em design contemporâneo. O interessante na conversa foi a constatação de que a mesa fora adquirida por minha esposa, ainda solteira, para acomodar o computador que à época serviria para a escritura de sua dissertação de Mestrado: um TK-3000.

Os mais velhos certamente recordam o enorme salto qualitativo que o computador pessoal (PC) empreendeu para compor documentos longos como uma dissertação, algo difícil de ser avaliado pelas gerações atuais. A possibilidade de digitar, corrigir e salvar um arquivo em disquete era uma absoluta novidade naquele instante, mesmo contrastando com a atual precariedade do equipamento (o TK-3000 continha um microprocessador de 1 MHz e 8 bits). Nos tempos da reserva de mercado em informática, era o que tínhamos ao alcance. Tanto que sua tela verde fez história, e ele se tornou um dos maiores sucessos de vendas da Microdigital Eletrônica, marca importante no início da Era Digital no Brasil.

Lá se foram duas décadas e, como podem adivinhar, o TK-3000 virou peça de museu. Nem com boa vontade seria possível continuarmos usando este PC, pois os disquetes compatíveis não existem mais no mercado. Porém, desde aquele tempo e até hoje, a pequena mesa desmontável jamais deixou de ter ótima serventia para a família. Esteve compondo ambientes tanto na nossa sala de estar como na de amigos, até a chegada do nosso primogênito. Então, pela facilidade de regular sua altura, virou escrivaninha infantil. Logo depois de um up-grade visual, passando do preto fosco para a tonalidade branca, trocou de dormitório, mantendo igual finalidade. Com seus dias de escrivaninha contados (os filhos e suas necessidades crescem), não creio que faltará bom uso para uma prática mesa de aço em nossa casa.

Se em tecnologia digital vinte anos são uma eternidade, para móveis a regra é outra. Herdamos, por exemplo, mesa e cadeiras de jantar de minha infância, fabricadas na década de cinquenta do século passado (em processo de restauração). Outra mesa da mesma época, e que mobiliava a casa da minha avó materna, está aqui na biblioteca. Ao lado da cama, uma charmosa escrivaninha que pertenceu ao meu sogro compõe a cabeceira, sustentando o laptop vez que outra. Isso sem mencionar outros móveis como cristaleiras, armários e mesas de apoio em estado de novo, avós da mesa de aço, com data de validade absolutamente em aberto, espalhados em todos os ambientes de nossa casa.

Isso me fez recordar a recente polêmica em torno do dito “fim do livro”. O suporte papel, segundo especialistas, será gradativamente abandonado em favor de e-books, telas nas quais o conteúdo será carregado a preços módicos conforme a vontade do freguês. Assim como já acontece com a música, a literatura será desmaterializada, sobrevivendo no etéreo mundo da informação digital. E, na corrida incessante e frenética do mercado, alguns revolucionários mecanismos de ler fora do papel, muito festejados agora, serão iguais ao TK-3000 em cinco ou seis anos. Há quem defenda a tese de que as mudanças de suporte pouco afetarão a obra literária. Algo me faz desconfiar dessa impressão.

Tudo bem: posso apenas estar sendo mais uma vítima da vertigem na escalada digital. Mas, que fazer se cada vez mais me agrada a idéia de materialidade… Quero objetos que pesem na mão, agradem ao tato, sejam frios ou quentes. Tenham, também, cheiro e marcas de história, e que necessitem de boa dose de zelo – além do habitual cuidado com a tecla delete. Como não interfiro em rumos que parecem já traçados – até prova em contrário – meu ato de resistência será acomodar o mp3 (4, 5?) e o e-book sobre sólidas mesas, esperando que o aço e a madeira confiram a estes transitórios objetos um mínimo de perenidade. Míseros bits de ilusão.

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2 Comentários

  1. Marcelo,
    Li o teu texto. Sim: existem diversos momentos em que os dois argumentos se entrelaçam. Esse tema é muito importante, pois outros sentidos são muito importantes, como o olfato, o tato… O mundo digital deixa a desejar.
    Muito grato, abraços, Rubem

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