Rufar dos Tambores

Número 353

MÚSICAS QUE EMBALAM SONHOS

Pobre, quando pensa, é sonho.
Dalva Damiana de Freitas

Sou praticante do zapping seletivo: diferente do simples subir e descer pelos canais de TV por assinatura, espio as emissoras mais ligadas à cultura em busca de boas surpresas ‒ e as encontro com frequência. Foi o caso de quando selecionei o Canal Brasil e o rosto de Naná Vasconcelos encheu a tela. Passava (lamentavelmente, já da metade para o final) o documentário Diário de Naná, dirigido por Paschoal Samora. Uma viagem do percussionista pelo Recôncavo Baiano em busca da sonoridade de raiz de nossa música popular e, nela, do Samba de Roda. A parada foi obrigatória, pois, além de ele ser um dos mais destacados e sublimes músicos brasileiros da atualidade, desde a juventude aprecio os múltiplos sons de Naná.

Naquele instante, era entrevistada Dona Dalva do Samba, uma compositora descendente de escravos, nascida na cidade de Cachoeira, interior da Bahia. Idosa, porém muito lúcida, ela explicava seu processo de criação: escutava uma palavra aqui, outra acolá ‒ tudo anotava. E dormia com lápis e caderno debaixo do travesseiro, para não perder as ideias que vinham. Dando (e provocando) risadas, Dona Dalva disse: “Naná, sabe como é: pobre, quando pensa, é sonho!”. Corri para meu próprio bloco de notas e registrei a frase na hora, pois, a exemplo dos compositores, cronistas também vivem de palavras escutadas aqui e acolá.

O aforismo de Dona Dalva, gracioso e espontâneo, permaneceu dançando em minha mente, girando ao som do samba que ela entoava com o luxuoso acompanhamento de Naná Vasconcelos. A frase explicitou com arguta ironia o preconceito de grande parte da sociedade com relação ao conhecimento e à arte de autêntica raiz popular, especialmente indígena e africana. Concluí que, em muitas oportunidades durante a vida da artista, teria causado surpresa a qualidade de sua obra, dada a humildade de sua origem. Fenômeno que ela reconhece não ser, nem de perto, uma exclusividade sua ‒ generaliza como normal aos “pobres”. E nessas todas, eu pensando: para criar com tamanha limpidez, eu teria que nascer de novo…

Segui assistindo o documentário até o final, embevecido com a cantoria do Samba de Roda e com as composições daquela senhora que, reunindo outras mulheres, utilizava as taquinhas do trabalho na antiga charuteira Suerdieck (pequenos tocos de madeira) para acompanhamento da música. Depois, quando quis conhecer mais sobre ela, soube do recente reconhecimento do Samba de Roda do Recôncavo Baiano como Patrimônio Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e Obra Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas pra Educação, Ciência e Cultura. Tive até vergonha de não ter sabido, muito antes, quem era Dalva Damiana de Freitas.

Felizmente, instituições como a Associação de Pesquisa em Cultura Popular e Música Tradicional do Recôncavo, e Associação Cultural do Samba de Roda “Dalva Damiana de Freitas” trabalham de modo incansável na preservação e divulgação da música típica desta região brasileira. Cada vez mais, também, atraem a atenção de pesquisadores do Brasil inteiro e mesmo de outros países. Combatendo todas as dificuldades orçamentárias da área da cultura em nossa nação, essas pessoas provam que os pobres, quando pensam e realizam, também fazem isso parecer um verdadeiro sonho.

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