Rufar dos Tambores

Número 360

TANTAS INFUSÕES…

Surpreendo-me distraído, preparando o café da manhã. Uma ação que, de tão rotineira, assume contornos de ato reflexo. Tanto quanto lavar o rosto, fazer o café já se tornou uma prática adotada pela coletividade. Hoje, parece acontecer em cada metro quadrado do planeta. Porém, a banalidade esconde a natureza mágica e ritualística de preparar e sorver infusões. Pior: a pressa sonega dos sentidos toda e qualquer ambição transcendental que, um dia, encantou o homem diante do vapor aromático e do paladar excêntrico.

Há registros que datam a preparação sistematizada de chás no Oriente à época da dinastia Tang. Parênteses: a coincidência com determinado suco em pó pode tanto ser algo a enaltecer em termos de marketing, como a lamentar pelo sabor adocicado da bebida industrializada. Sem incidir em excessos, arrisco-me a elevar o ato de mergulhar ervas, flores, folhas ou raízes em água quente a uma escala global e tempos imemoriais. Afinal, também nossos antepassados africanos, americanos e europeus, de modo mais ou menos organizado, experimentaram suas próprias imersões e usufruíram seus resultados.

O café como nós conhecemos, arábico, nascido da observação de pastores às reações das cabras que comiam a fruta, talvez seja a infusão mais relevante da história. No passado, denominou ciclos econômicos e, hoje, elevado a status de commodity, chega a rivalizar com o petróleo em termos de representatividade no mercado mundial. Nada mal para um líquido escuro incapaz de mover qualquer máquina. No entanto, o que ele proporciona vai muito além da combustão ou da petroquímica: deleite! Além do perfume imbatível e do sabor inigualável, o café ainda oferece como subproduto uma maior disposição – há quem seja movido pela cafeína. Aposto que essa droga lícita até nos deixa mais inteligentes.

No Cone Sul (Brasil, Argentina, Uruguai…), temos outra infusão digna de registro: o chimarrão. Há poucos dias estava, justamente, ensinando meu filho a cevar o mate. Ensinando modo de dizer: ele mesmo afirmou que, na teoria, por observação, já era capaz de montar o chimarrão sozinho. Logo, o que fiz foi apenas lhe dar a oportunidade de preparar a bebida que seria compartilhada por nós. Mesmo aquém do café em termos de perfume e intensidade gustativa, o chimarrão é, para nós gaúchos, a síntese da congregação. Enquanto a cuia roda, os homens são iguais, adquirem um caráter de pertencimento e cultivam a fraternidade. Valores dignos de serem passados para aqueles que estão, justamente, entrando na juventude.

Por falar em legado, jamais podemos deixar de mencionar o valor medicinal dos chás. Quantas dores de barriga foram amenizadas pelo delicioso remédio familiar? Outras vezes, é no amargor da infusão que repousa a solução de nossos males. E, mesmo quando a química contida na água quente em nada contribui para a cura, o carinho de quem oferta um chá pode vir a ser o placebo mais eficaz do mundo – principalmente para os reflexos da dor em nossa alma.

Como estava dizendo, surpreendi-me, distraído, preparando o café pela manhã. Mas – que dádiva! – seu perfume acabou por me libertar das grades da banalidade. Talvez esteja aí a grande importância dos pequenos rituais: nos induzir para além dos movimentos peristálticos ou condicionados. E, no beijo quente da xícara, pelo método mais saboroso: o do prazer.

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2 Comentários

  1. Bem-querido Rubem: Que saborosa esta tua crônica! Chega-se a sentir o perfume do café (dá vontade até de passar um pouquinho atrás da orelha…).Como na crônica Expresso (29.7.2009), na qual este tema também aparece.
    E como o café são tuas crônicas: às vezes amargas, outras mais doces, fortes ou mais leves, temperadas com pimenta ou mel,mas sempre deliciosas. Viciam. E ainda que sejam degustadas muitas e muitas vezes, não trazem contra-indicações. Como o café, segundo recentes estudos. Mas, como o café, podem nos fazer perder o sono, dependendo do assunto. E da sensibilidade de quem lê e aprecia este grande e generoso escritor que é o Rubem.
    Abraços da Jussara.

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