Rufar dos Tambores

Número 363

RÉGUA EMOCIONAL

Sábado passado cheguei numa festa com passos miúdos. Naquele momento eu estava assim, como dizer, meio deslocado. Em cada ambiente, a conversa já corria solta. Peguei uma em seu final, sem saber por onde tinha começado. Mas pouco importa, pois o que escutei fora suficiente para ficar calado por mais um tempo, pensativo. Dizia um interlocutor: “O melhor é nunca voltarmos para os lugares grandiosos de nossa infância. Basta o olhar adulto para vermos que é menor do que lembrávamos, mais feio, menos encantador. Nem os livros eu releio: prefiro guardar a impressão que tive na primeira passada de olhos”. Fui tomado de assalto – eram palavras que faziam sentido.

Quem de nós já não sofreu uma cabal decepção ao chegar num pátio em que jogava futebol – muitos em cada time – para descobrir que o espaço nem acomoda uma cancha de vôlei? Ou naquele corredor enorme na lembrança, encurtado pela perspectiva madura? Isso sem falar no muro altíssimo, na árvore frondosa, na piscina sem fim, na caverna assustadora… Esses dias, descrevia para meus filhos o barranco que havia no pátio da escola: perigoso. Será? Para o olhar infantil, os ambientes têm outra medida, jamais determinada por metros: fatores intangíveis são preponderantes. Quanto mais medo, respeito, desafio, tanto maior representavam.

Alguns adultos também eram verdadeiros gigantes. Pouco importava a altura em centímetros: valia muito mais suas atitudes, ferocidade, imponência. Intuíamos com perfeição a autoridade de alguém – crianças compreendem muitas coisas. O tom da voz também fazia a diferença, e nisso os homens sempre levaram vantagem na hora de impressionar um pequeno. Quando crescemos, ao mesmo tempo em que idosos diminuem, a mágica perde impacto. Os bem educados preservam o respeito aos mais velhos. Mas, no fundo, a relação de forças tende a favorecer as gerações que estão no ápice, e não raras vezes nos decepcionamos com a fragilidade de pessoas que julgávamos invencíveis.

O mar, as dunas, o cão feroz, a mesa de jantar. Na meninice, tudo era maior, tudo mais grave. Paisagens recobertas por uma aura de mistério, tecidas pela fantasia, impossíveis de se aferir ou compreender. Mensagens cifradas surgiam nas rodas dos amigos dos meus pais: política, economia, sexo. Tão grande quanto o pé direito da igreja ou do saguão da escola, era o mundo que desfilava naqueles discursos noite adentro. Isso até quando nos permitiam ficar acordados, o que em tempos passados era pouquíssimo.

Confesso que algumas vezes já questionei a riqueza, ou precariedade, que pude oferecer aos filhos durante seus primeiros anos de vida. Ainda mais agora que crescem diante de nós, deixando a inocência cada vez mais para trás. Talvez estivesse sendo severo demais comigo. Ou equivocado, simplesmente. Afinal, o mesmo olhar deslumbrado que um dia tive, faiscou no semblante deles até pouco tempo. E ainda falta muito para terem a fria compreensão das proporções, empobrecida por fatos, alijada de imaginação. Assim espero, ao menos…

Só sei que sábado, na festa, eu era um dos gigantes, numa casa enorme, argumentando sobre temas complicados, oferecendo e cobrando explicações dos pares. Mas apenas depois de passar pelo meu leve desconforto. Estranhamente, cheguei de calças curtas no lugar. E um pouco assustado, pois aquela conversa sobre o olhar infantil, incrível, me denunciou.

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