DEUS E O DIABO NA SALA DE ESTAR

Ela jamais pensara em contratar um profissional desse tipo, mas temia ficar mal falada entre as amigas – em breve seria a única a não recorrer aos serviços de um deles. Cercou-se de mil recomendações sobre Gustavo: colocar alguém para dentro de casa, nos dias de hoje, não deveria ser algo feito sem muitas precauções.

Nervosa, porém decidida, esperava sua chegada para as dez da manhã. Enquanto isso, pipocou de peça em peça da casa – consultou e-mails no escritório, fez uma nota na lista de supermercado grudada na geladeira, correu até o banheiro para ver se a toalha do júnior estava estendida, foi ao quarto para ligar ao marceneiro e lembrá-lo que havia desmarcado a visita de hoje (Deus nos livre!). Por fim, acabou voltando para o computador… Minutos eternos!

Gustavo chegou britânico. Alto, forte e, mais do que tudo, sorridente como homem em comercial de carro esportivo. Disse que conhecia o prédio, pois atendera alguém durante o verão passado inteiro. Desde os meados de outubro, na verdade. Ela não queria detalhes. Bateu palminhas como quem diz e daí, o que fazemos primeiro, mas foi contida em seu ímpeto por um olhar mais sério: combinações prévias antecederiam qualquer movimento da parte deles dois – partindo do pressuposto que seriam apenas eles, senão o preço mudaria, é claro.

— Primeiro: onde a senhora quer?

— Senhora não. Por favor, use você!

— Sim, melhor: onde você quer?

— Como assim, onde? – parecia morrer de tão nervosa.

O rapaz respondeu que era polivalente. Valia mais o conforto e ela sentir-se bem. Uma cliente, por exemplo, escolhera a cozinha. Outras, menos inibidas, pediam que fossem para a varanda. Por ele, tudo bem.

— Aqui na sala, pode ser? – ela perguntou meio sem graça.

— Ótimo! Será com música?

A dona da casa pensou por um segundo, mas correu em responder que não, ou sim se ficar estranho do outro jeito. O mais importante, pensava, era ficar livre dos detalhes das outras, que ele soltava sem o menor pudor. No futuro, falaria dela, também? Ao menos não citava nomes… Enquanto ele tirava a jaqueta e as calças, ela tomou coragem:

— Desculpe a ansiedade: podemos começar agora, não é? Eu estou pronta desde as oito e meia!

— Ainda falta o mais importante: vamos fazer falando ou em silêncio?

— Qual a diferença? — perguntou desculpando-se, era sua primeira vez.

— Bom, falando eu digo qual a posição, o que faremos, como faremos, proponho variações, dito o ritmo, encorajo… Tudo aquilo, sabe?

— Sei, sim, claro. Parece ótimo. Mas, e em silêncio?

— Ah, gosto mais! Mas precisa de olho no olho, confiança, sensibilidade, toque. Eu começo e a se… Digo, você me segue. Eu troco você troca. Eu acelero…

— … e eu quero assim, e quero agora! – puxando o homem pelo braço.

Normélia tinha razão: Gustavo não era um personal. O diabo era deus!

 




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