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Número 393

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DEPOIS DO CAIS VEM A ÁGUA

Rubem Penz

Já são incontáveis os anos de espera para os porto-alegrenses verem a sua área portuária revitalizada e finalmente integrada à cidade. Ao olhar para Buenos Aires e seu Puerto Madero, ou para o Porto de Lisboa, dois bons exemplos, submergia a inveja. Agora, a expectativa parece estar chegando ao fim. Em alguns momentos temi que isso nunca viesse a ser realidade, por mais que fosse um sonho coletivo. Porém, ainda no fervor da comemoração, o próximo passo se impõe. E ele é, na verdade, um mergulho, pois deve acontecer dentro das águas do Guaíba. O Brasil precisa acordar para as hidrovias.

O Cais Mauá, lindo projeto dos urbanistas Jaime Lerner e Fermín Vázquez, é o recém nascido de uma cidade mãe traumatizada por muitos abortos espontâneos. A política brasileira, e mais fortemente a gaúcha, costuma interromper os planos de longo prazo a cada troca de governo. Como ainda não tivemos governadores reeleitos no RS, significa que nenhum plano de maior fôlego, concebido para cumprir uma gestação longa, tinha chance de chegar a bom termo. Precisou um governo feminino fazer o lógico: permitir que a mesma equipe que já vinha tecendo os complicados entendimentos para vermos renascer a área costeira continuasse seu trabalho. Algo para além das siglas partidárias e visando o bem comum.

O principal traço do projeto para o Cais Mauá é a acessibilidade. Em outras palavras, a devolução de caminhos para que a cidade de Porto Alegre e o Guaíba sejam novamente integrados. Parece até mentira: mesmo com porto em seu nome, a capital gaúcha esteve ceifada do convívio com as águas que compõem sua paisagem central durante décadas. Muitas gerações deixaram de ser moldadas pelo carinho das margens, algo muito determinante na personalidade dos homens. Seríamos menos secos de afeto caso jamais erguêssemos muros entre o solo e a água – basta reparar na leveza e afabilidade dos povos litorâneos.

Mas agora que estamos chegando às bordas de um novo tempo, há que se mergulhar para dentro do Guaíba. Uma cidade com graves problemas viários não pode seguir desperdiçando traçados em hidrovias. Seja para fins turísticos, seja para transporte de carga e passageiros, o leito do Guaíba e de seus afluentes esperam por embarcações. Quem viaja pelo Brasil e pelo mundo vê o quanto de praticidade e beleza o transporte hidroviário oferece. Além do mais, é menos poluidor. Se integrado com outros modais, poderá deixar muitos automóveis guardados na garagem. Também é o caso de estimular os esportes náuticos, tais como remo e vela, e o banhismo, cada vez mais próximo com o gradual avanço do tratamento dos efluentes.

   Porto Alegre será uma das sedes da Copa 2014. Estará inserida em um contexto global só comparável ao momento em que acolheu o Fórum Social Mundial. Brasileiros por todo o mundo querem ter orgulho de nossas cidades. Caberá ao governador eleito um mergulho sério nestas questões. E ao prefeito a disposição de prosseguir remando para o mesmo lado: ambos para frente, de preferência – não merecemos retrocessos diante de tão lindo filho que a cidade acolhe em seus braços. Vamos partir do Cais Mauá para mergulhos mais profundos e voos mais altos. O sol que se põe no Guaíba há de testemunhar o nascimento de novos dias.

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