Rufar dos Tambores

Número 403

A solidariedade dos onze

Rubem Penz

Correm tempos de videogames irados – como qualificam meus filhos. Porém, na mais pura nostalgia, vou falar de bingo. Não bingo eletrônico, ambientado em um quase cassino e lutando no Congresso Nacional para ser legalizado e abrir no Brasil uma fresta para os dados, a roleta, os caça-níqueis e o carteado por dinheiro. Falo do bingo romântico, praieiro, com cartelas de papelão cartonado e feijões pretos para marcar os números. Tudo na maior simplicidade, verdadeira antítese dos hotéis de Las Vegas. Acontece que o ano de 2011, por causa da dezena final, me fez viajar no tempo e lembrar dos cantadores de números de bingo de minha infância e juventude. Jogos quase sempre em favor da paróquia local: para consertar o telhado – ah, a chuva que ora é benção, ora castigo…

Enquanto a roda de grades metálicas girava na velocidade da manivela, todos ficavam vidrados para, esperançosos, saber qual esfera cairia. Um salão inteiro ambicionando o liquidificador, brinde gentilmente doado pelo magazine X. Havia os que desperdiçavam a sorte para ganhar uma garrafa de uísque nacional, faca de churrasco ou dois ingressos de cinema. Outros permaneciam na expectativa dos prêmios mais vultosos, como o par de poltronas de vime, diárias em hotéis de Estâncias Hidrominerais e, claro, os eletrodomésticos. Por fim, havia os que jamais eram bafejados pelo doce hálito da sorte – minha turma –, para os quais a graça do jogo era se divertir com o animador do espetáculo:

– Meia dúzia plantando bananeiras: é o nove!

– Dois patinhos na lagoa: vinte e dois!

– A idade de Cristo: marquem o trinta e três!

No bingo, havia um número para o qual sempre cabia uma pessoa: o onze. Ano após ano, telha por telha para substituir na Igreja, cantava-se a fatídica pedra:

– Onze: as pernas do Carlinhos!

E eu quieto, agradecendo a todos os Santos pelo milagre da tradição. Afinal, bastava um olhar atento para perceber que, homem feito e pai de família, o Carlinhos há muito não era o rapazola que crescera depressa, deixando o corpo com pouco recheio. Providencialmente, eu tratava de vestir calças compridas na ocasião, para jamais estimular uma atualização no discurso. Passava o tempo e tudo me divertia, menos o enunciado do 11. Adivinhava que meu dia,cedo ou tarde, haveria de chegar.

Tanto quanto os sonhos coletivos, os pesadelos individuais viram realidade. Não sei se o Carlinhos moveu uma ação revisional, ou simplesmente caiu a ficha do cantador junto com a bolinha sorteada… Mas já era pedra certa. Uma noite:

– As pernas do Maninho (apelido de casa): é o onze!

Gargalhada geral. Até que enfim poderia vestir bermudas: a verdade nos liberta. Eu, que sempre gostei mais do número oito, e que nunca joguei na ponta esquerda, virara sinônimo de onze. Apesar de que por muito pouco tempo. Teria engordado? Nem um quilograma… O que mudou, para o meu desconsolo, foi a praia. Hoje, aquele salão está em ruínas. Arrecadam-se donativos sem nenhuma alegre contrapartida (sim, ainda há que se reformar o telhado da capela). Ninguém mais se encontra.

Quer dizer, mais ou menos. A cada novo verão, o Carlinhos, nosso vizinho de casa de veraneio, olha bem para mim e diz: “Sabe que eu tinha as pernas quase tão finas quanto as tuas?” Faço que sim com a cabeça. Ambos sabemos o que isso significa. É a solidariedade dos onze.

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