Rufar dos Tambores

Número 407

Et Cetera

Rubem Penz

Soube de uma história inverídica que, mesmo que fosse mentira deslavada, bem que pareceria verdade. Um amigo bem desolado procurou por Áureo (ocultarei sua identidade neste nome fictício). Pediu para sentarem em um lugar discreto, pois haveria um tema delicado para abordar. Áureo ficou levemente apreensivo e não deixou que chegassem ao assunto antes de dois ou três chopinhos, para dar uma relaxada. Deu certo, pois ambos deram risadas relembrando passagens da vida escolar. Depois de julgar que o clima estava mais suave, Áureo se fez ouvidos. Depressivo outra vez, o amigo chegou ao ponto: Sabe – falou acabrunhado e com a voz fugidia – notei que eu estou sempre, sempre, sempre lá no etc.

Atormentava-o a certeza de nunca ser mais do que um entre tantos, justamente aqueles mesmos sempre presentes, contados, esperados, desejados até, mas jamais nomeados. Sentia-se o eterno dançarino do corpo de baile. Figurante em cena. Rosto buscando desesperadamente a brecha entre os ombros no fundo da fotografia, mas nem assim sendo reconhecido. E, para piorar, carregara a família para o mesmo destino. Não que almejasse pódio, prêmios e honrarias. Estava consciente de que nunca galgara a altitude dos campeões. Seu pleito era mais modesto: bastava-lhe uma citação nominal, por menor que fosse.

Confessou que nada disso fora muito importante até então. Mas agora que os filhos estavam crescidos, cada vez mais informados e críticos, cobravam-no a suposta invisibilidade a todo instante. Ué, você e a mamãe não estavam nesta festa, papai? – disse uma, folheando a revista. Este ocupando meia página de jornal não é o seu colega de trabalho? – falou o outro. Não entendo, papai: pagaram uma nota para estarem no camarote do show, entrevistaram quatro ou cinco pessoas e vocês só apareceram nas frações de segundo de uma tomada panorâmica típica de edição… – reclamou a mais velha.

Áureo colocou a mão no ombro do amigo e disse compreender. Ponderou que a geração dos seus filhos estava sendo criada em um momento histórico diferente, até certo ponto doentio. A massificação das mídias, o fenômeno das redes sociais e sites tipo youtube deram para eles a falsa impressão de que são melhores os homens e mulheres que aparecem mais do que os outros. Porém, o culto à celebridade instantânea, tipo Big Brother, na realidade criava ídolos sem critério. E que isso tornou o verdadeiro mérito da visibilidade algo até certo ponto questionável. Por fim, disse que não cansava de denunciar isso nas diversas entrevistas que dava na TV, no rádio e no jornal.

Naquele instante, Áureo sentiu que pisara na bola. Também se arrependeu dos tantos chopes que havia insistido em consumirem. O amigo bateu com força na mesa e esbravejou que era disso mesmo que ele estava falando, e que não entendia como um deles estivera continuamente citado em tudo o quanto era oportunidade, enquanto o outro, sempre ao seu lado, permanecia invisível. Anonimamente, trabalhara para eleger Áureo representante de turma, conselheiro no clube, presidente na associação, delegado nos congressos… E eu? Sou menos do que um cão – falou aos prantos – pois ele ainda ganha afagos.

Foi quando o amigo, num rompante, apanhou uma faca na mesa ao lado. Matou Áureo em cena violenta, estúpida, chocante.

No dia seguinte, todos os conhecidos foram surpreendidos quando viram o jornal. No rodapé, o clube e a associação pagaram belos anúncios fúnebres. Áureo também apareceu em perfil extenso e detalhado na coluna de obituário. Enquanto isso, a manchete de capa estampava garrafal: “Dezessete mortes em fim de semana violento”. Na fotografia, o destaque foi para uma chacina em boca de fumo. No corpo da notícia apareceu o caso do ladrão em fuga que bateu no ônibus que voltava de uma romaria, o afogamento de um operário na estação de tratamento de água, o filho do comerciante que fora baleado diante do pai etc.

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