CrônicasMetro - Porto Alegre

O estandarte do sanatório geral

Jornal Metro em 19.06.13

O ESTANDARTE DO SANATÓRIO GERAL

“Vai passar nessa avenida um samba popular

Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar”

Chico Buarque

Para quem tem certa idade, é imediato relembrar daqueles movimentos populares que clamavam por liberdade em tempos idos ao ver as manifestações que tomaram conta das ruas e avenidas das principais cidades do Brasil. Eu, sem partido, estive nas fileiras das Diretas Já. Eu, sem partido, pintei nas cores do Fora Collor. Eu, sem partido, jamais me senti minimamente só – éramos muitos. Cheguei à juventude em um momento mais suave, quando o regime vigente cedia espaço e, principalmente, preparava a saída de cena. Colhi (colhemos) uma impressão de incontestável vitória.

Afinal, minha geração cresceu na confiança de que a democracia, por si, viria como redenção para todos os nossos males. Daria conta de todas as nossas mazelas. Resolveria de vez por todas o que nos afligia: governos surdos ao apelo da população, incapazes de devolver para a sociedade a contrapartida justa e constitucional sobre tudo o que se arrecada nos impostos. Apostei todas as fichas na liberdade de expressão como fiscalizadora, no voto como propulsor de mudanças, na alternância de governo como oxigenador das ideias.

Porém, pouco a pouco, os sucessivos governos civis – em todas as instâncias e, agora, de todos os matizes – se mostraram viciados em um tipo de administração que trai escandalosamente sua vocação. Governam para si. Pensam apenas na próxima eleição, nos projetos de poder, na franquia para suas ações – a dita governabilidade. Enquanto isso, degrada-se a infraestrutura, a segurança vira pó, a saúde claudica, a educação é sofrível. Abrem um grave flanco para quem descrê na capacidade do povo de decidir entre o certo e o errado.

Agora, parece nascer em nossos jovens um ímpeto valioso e que se propõe a usar a liberdade para o passo seguinte: a cobrança. Um basta que tem por ponto visível o valor das passagens de ônibus, mas esconde (ou melhor, revela) propósitos maiores. Refutando bandeiras partidárias, condenando atos de violência e ocupando as manchetes dos jornais, os jovens gritam: chega! A classe política não está sabendo lidar com pautas múltiplas porque ainda não se apercebeu de que deixa a desejar em todas as frentes. Aí, parece que a meninada traz nas mãos o estandarte do sanatório geral. A loucura sã de quem ousa acreditar, outra vez, que será possível acordar a pátria mãe, subtraída em tenebrosas transações. Abram alas!

 

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