Coluna do Metro em 19.12.12

O FIM DO MUNDO EM NOSSAS MÃOS

Esqueça os mortos que eles não levantam mais, disseram Veloso & Cavalcanti na versão de It’s all over now, do Dylan. Recorro aos versos para lembrar que o fim dos tempos está nas mãos dos vivos. Em nossas mãos. Resta saber se teremos condições de cumprir a tarefa no prazo estabelecido pelos maias, em 21/12. Imagino algumas premissas:

Termina o mundo se despertarmos dispostos a perdoar o mais vil ser humano. Aquele cuja crueldade suplanta nossa compreensão, cruzando a fronteira dos valores mais básicos – ele, claro, em verdadeiro arrependimento. Se despertarmos prontos a doar o que nos excede, abrindo mão de conforto e luxo para que jamais, daqui para frente, tenhamos fome, miséria e peste açoitando irmãos em qualquer canto do planeta.

Termina o mundo se despertarmos resolvidos a fazer o justo, ou seja, ofertar ao outro tudo o que estiver na exata medida do que esperamos para nós, num sistema de reciprocidade perfeito. Se despertarmos conscientes de que direitos e deveres são lados de uma só moeda, de valor de face idêntico para todos e cuja propriedade é também comum. Neste dia, extinguiríamos, por inúteis, os tribunais.

Termina o mundo se despertarmos convencidos de que a pressa é inútil, a raiva é inútil, a cobiça é inútil, a ganância é inútil, a inveja é inútil – justamente o que tem movido atitudes corriqueiras e orientado muitas de nossas escolhas. Se despertarmos constatando que o muro, a grade e o alarme que protegem nosso lar perderam a função, pois não há mais o que temer, não há mais motivos para desconfiança, não há sinal de discórdia entre os homens.

Termina o mundo se despertarmos plenos de amor. Prontos a ajudar. Desarmados para confessar fraquezas. Humildes diante da ordem universal. Harmoniosos com a natureza. Despidos de malícia. Felizes pelo simples fato de estarmos vivos e rodeados de outros seres assim. Enfim, termina o mundo quando dermos sinais ao Criador (tenha Ele o nome que sua fé escolher) de que chegamos ao fim. Completamos Seu projeto.

Não sei você, mas eu desconfio de que mal trilhamos os primeiros passos na direção do encerramento desse mundo. Alguns supostos avanços nos colocam, aliás, na contramão do fim dos tempos, arriscando destruir mais do que construir – e retroceder nunca foi caminho para o fim, e sim volta ao princípio.

Vale lembrar que no princípio era o caos. No fim, a promessa é de redenção.

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