Rubem Penz

Hoje é o Dia Nacional do Samba. Ah, o samba… Sinto que aconteceu conosco um caso de amor à primeira audição. Meus pais garantem que, mal havia aprendido a falar, já cantava “Pandeiro de prata”, de Túlio Piva:

“Ele nasceu no morro, não sabe nem em que data

Até pensava que a lua pendurada no céu fosse um pandeiro de prata”

Uma espécie de vaticínio pois, mesmo que eu não tenha nascido no morro, ou que a vida tenha sido má comigo (calejando meus braços), sempre tive o samba para cantar meus amores e dissabores, como nos versos de Cartola:

“Finda a tempestade, o sol nascerá. Finda esta saudade, hei de ter outro alguém para amar”

E o samba também ajudou a compreender alguns percalços típicos de minha geração, crescida num tempo meio sombrio da história. Precisando, lá estava o Paulinho da Viola para auxiliar no entender das coisas:

“Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro, e você?”

Na dúvida, bastava deixar os ouvidos mais atentos e colher algumas dicas que os sambas do Chico ofereciam – sempre naquela mensagem além das palavras:

“A gente vai contra a corrente, até não poder resistir
Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir”

Pelo samba, soube que tudo iria passar (a tal página infeliz da nossa história) e a esperança vinha de todos os lados, inclusive nos versos de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares:

“É o juízo final, a história do bem e do mal. Quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer”

Sim, meus olhos viram a mudança dos tempos, ainda que estejamos muito distantes do paraíso prometido pela democracia. Mas até mesmo um certo perrengue é necessário para que o samba siga existindo – bem como ensinou Vinícius:

“É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração. Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não”

Por fim, existiu e sempre existirá Noel Rosa para justificar minha paixão pelo samba. Um verdadeiro cronista em versos para defender quem é rotulado de vagabundo por gostar dessa música tão brasileira. Contra nossos detratores, fecho com o mestre:

(Quanto a você) “Há de viver eternamente sendo escravo dessa gente que cultiva a hipocrisia”

Crônica publicada no Metro Jornal em 02.12.14

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