CrônicasMetro - Porto Alegre

Os três furos de um homem

Coluna do Metro em 15.04.14

Hoje sou um homem em paz consigo e, nesta confortável condição, pretendo dialogar com meus colegas de gênero (cheguei a escrever “colegas de sexo” e vi que poderia ser mal interpretado). Tudo porque estou vivendo um longo momento “furo do meio” no meu cinto. Meus caros, eis um bom objetivo: estar no tal furo do meio durante a maior parte do ano. E, antes de defini-lo, vejamos o que seja o “furo antes” e o “furo depois”.

Quem conseguir manter o cinto das calças com não muito mais do que três marcas de uso, partindo do incrível, passando pelo bom e chegando ao estado de alerta, fará a alegria do cardiologista. No meu caso, um caso magro, o furo antes significa saudade. Saudade do tempo em que não havia qualquer preocupação com a ingestão de calorias, carboidratos ou cerveja. Zero estresse. O conceito de barriga negativa, hoje tão comentado, pode ter surgido na mente de um professor de educação física ex-colega meu de faculdade, lembrando da minha cintura. Já dei inveja aos bailarinos espanhóis. Essa é a notícia boa. A ruim é que o restante (tronco, braços e pernas) sempre acompanhou a finura, prejudicando a estética. Enfim, não creio que voltarei ao furo antes a não ser por doença. Mas ele está ali como parâmetro.

O furo depois é o alarme. A vantagem de mantermos um alerta assim tão sensível (o que há de distância entre os furos do cinto, dois centímetros?) é a de impedir que a coisa desande. Já me contaram que perder mais do que dez quilos é muito sacrificante. Bom, precisarei ganhar um número desses para conhecer a sensação de perdê-los… E nada é mais deprimente do que um magro barrigudo. Se eu subir de peso, que a coisa seja parelha – engordar até nas orelhas. Nada de formato de corda com um nó no meio. Todo homem deve maneirar quando contar duas marcas de cinto atrás da que mantém a calça no lugar, voltando imediatamente para o furo do meio. Façamos isso em nome da saúde.

Por fim, considero que cada um poderá ter o tal furo do meio que mais lhe aprouver. Ninguém precisa ser magricela por decreto. Eu próprio não vejo grande vantagem nesta condição a mim imposta pelo destino. Então, leitor, entre em acordo com seu médico (só ele e você em consonância saberão o peso ideal) e eleja seu furo do meio. Não precisa voltar para o furo antes – veja-o como marca dos bons tempos. Feche a boca ao chegar no furo depois – imediatamente, sem deixar o caldo entornar. Goze o prazer de estar no furo do meio! Esta regra vale para magricelas e para gordinhos. Vale para manter a saúde e a autoestima. E vale, principalmente, para combater a indisciplina – prato cheio para o descontrole alimentar.

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2 Comentários

  1. Rubem, que massa tua crônica, pra ficarmos num adjetivo condizente com o tema! Profunda e bem -humorada. Ri muito dessa tua régua proposta, mas também fiquei pensando: tô quase passando para o furo depois…Ouço o sinal de alerta, meu amigo geneticamente privilegiado.
    Abraços!
    Tiago

  2. Tiago, meu velho!

    Mas, na minha idade, não basta o privilégio genético. Precisa-se de cuidado, também…

    Feliz que tenhas curtido, abração, Rubem

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