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Por que tenho discos?

Coluna Achados e Perdidos no Metro Jornal em 08.04.14

Em etéreos tempos, tempos de nuvens e de relações fugidias, por que tenho discos? Aqui cabem dois adendos importantes: primeiro, estão na mesma categoria (discos) os LPs e os CDs, outrora separados pela tecnologia, hoje irmanados pela aparente obsolescência. Segundo, consciente de que a crônica abraça confissões, adianto que sou alguém com um tantinho de preguiça para aderir correndo às novas formas de fazer o que já faço. Porém, ainda que naturalmente espantado (perdido, inseguro, tonto), depois, rendo-me. Ou imaginam que estou escrevendo numa Olivetti?

É quando volto a questão: por que tenho discos? Mais do que ter, por que compro discos novos? Muito mais do que ter e comprar, por que estou gravando um? A explicação precisa ir além da natural resistência de um homem que empilha décadas sobre os ombros em adotar o novo – a própria analogia ao abandono da máquina de escrever comprova isso. Então, menos do que para convencer os infantes de que não sou ultrapassado (tarefa inglória), mais para dialogar com os pares, busquei na intimidade da reflexão algumas pistas:

Tenho discos para perdê-los pela casa. E, num domingo de manhã, num domingo de sol ou de nuvens, de calor ou de frio, mas num necessário domingo de tempo para a contemplação, encontrá-los. Espantado, reconhecer as razões que mobilizaram tempo e capital para sua compra. Insurrecto, martirizar-me pelo tanto de tempo desde sua última audição, quase sempre uma brutal injustiça com músicas lindas e arranjos primorosos ali contidos. Reconfortado, perdoar-me, pois só matamos a saudade quando ela existe. E matar a saudade é algo muito bom para domingos pela manhã.

Além do mais, tenho discos por aquilo que o conjunto de temas caprichosamente agrupado pelos autores reprisa em mim. Para que recorde tudo o que de história minha ali contém. Sim, discos contam histórias nossas. E, mesmo reconhecendo a capacidade de uma só música abrigar mil lembranças, prefiro a multiplicidade dos sons e das palavras para completar as imagens. E aí entra outro motivo pelo qual tenho discos: a duração de cerca de uma hora de música parece meio orgânica. Sempre que posso, escuto o disco do começo ao fim.

Poderia facilmente parar por aqui e pareceria honesto, mas sei que sonego o fundamental. Talvez tenha discos porque, no fundo, tenho medo. Medo de que minha vida se esfumace, de que suma a necessidade de uma hora de música, de que a arte dispense a elaboração para além do tweet. Medo do silêncio que espreita cada manhã de domingo. Medo de me perder em casa e nada mais encontrar com o condão de resgate. E medos tão íntimos se abrandam quando se pode pegar nas mãos algo para revelar a alma. Por exemplo, discos.

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8 Comentários

  1. Bonito texto, Rubem. Eu também tenho discos. Vendi alguns, troquei por outros. É uma parte da nossa história. E os discos eram – e são – peças para a gente colecionar, com encarte, alguns com capa dupla – mais legais que o cd, e infinitamente mais rico do que simplesmente baixar pela internet.

    Sucesso com o teu novo disco. E com os velhos também. 🙂

    Abração!

    1. Grande Daniel!
      Muito obrigado! E, no tocante a discos, minha coleção cresce e diminui, também, ao sabos dos casamentos e separações… Coisas da vida!
      Abração, Rubem

  2. Rubem, que crônica tocante. Uma crônica toca-discos. E o se o Cd já é coisa do passado, que tempos vorazes! Eu também ainda guardo alguns vinis, e continuo ouvindo e comprando CD’s. Sinto falta das imagens, do material gráfico que inexiste na música em mp3. Quantos CDs e discos ficaram pelo caminho, e hoje habitam casas que um dia também foram minhas??
    um abraço,
    Tiago

  3. Olá Primo Rubens,

    Muito poético, como sempre, em suas crônicas.
    Isto me faz lembrar da minha Olivetti Letterra, aquela que vinha numa maleta, a qual aprendi a “datilografar”.
    Quanto aos “discos” tento imaginar a próxima geração, depois dos vinis, CDs, pens – Será que teremos os “asplçdfkmv´p” magnéticos, ou os “poasifmnvpo” olográficos?
    Abraços.

    Seu primo Alfredo – Joinville.

    1. Alfredo,

      Muito texto saiu da minha mente para o papel em máquina de escrever! Muitas vezes fazia o processo criativo com caneta e lápis, usando a máquina para passar a limpo…

      Vamos ver o que o futuro reserva. Seguirei resistindo em formatos físicos tanto quanto conseguir.

      Obrigado, abraços do primo Rubem – Porto Alegre

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