Coluna de 11.02.14 no Metro Jornal

O jornalista José (Macaco) Simão, colunista da Folha de São Paulo e da BandNews FM, é um sujeito especializado em encontrar a graça no cotidiano. Sou fã e ouço sempre, principalmente porque, na rádio, ele faz o pingue-pongue com outro espirituoso, Ricardo Boechat. Entre uma gargalhada e outra, apresentam um quadro quase fixo: Os Predestinados. São pessoas físicas e jurídicas cujo destino é marcado pelo nome. Lembrei-me do Simão ao ser alertado pela minha irmã para uma placa de estrada perto de quem está chegando à Praia do Barco, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Acima da flecha indicativa, o nome: Mecânica Magaiver.

A inspiração me parece óbvia: em Angus MacGyver, agente secreto norte-americano da série de TV homônima, estrelada por Richard Dean Anderson entre os anos 1980 e 1990. Para quem é muito jovem e não conhece, MacGyver se tornou enorme sucesso por combater bandidos sem jamais portar armas de fogo. Ao seu dispor, um canivete suíço, toda espécie de sucata e material industrial ou doméstico e, claro, um manancial ilimitado de conhecimentos científicos. As soluções encontradas por ele para escapar de confinamentos, conter tragédias ou preparar armadilhas eram todas possíveis, mesmo que não exequíveis (parece que a justificativa para isso seria a de crianças não explodirem suas casas ao copiarem as fórmulas).

Pois, se a Mecânica Magaiver for predestinada, fico imaginando o que é deixar o carro aos cuidados dos proprietários. Ao invés de peças originais de fábrica, o material viria de um enorme depósito de quinquilharias. De clipes de papel à chicletes, da fita crepe aos botões de velhas calças jeans, do cano de PVC à dobradiça de escrivaninha, o que se possa imaginar se encaixaria de modo perfeito na suspensão ou no motor. Líquido de radiador, água de bateria, fluido de freio? Nada é necessário quando se tem água sanitária, vinagre balsâmico, seiva de pinheiro, urina de cachorro ou chá de erva cidreira por perto. Basta misturar com raspas de cano enferrujado, Melhoral Infantil ou pimenta do reino e a mágica acontece.

Pensando bem, a diferença entre o MacGyver da televisão e meu suposto Magaiver talvez seja aquilo que separa o primeiro do terceiro mundo: no primeiro, muito estudo e a aplicação da ciência. No terceiro, o velho jeitinho brasileiro, a improvisação, o empirismo. Tomara que a oficina desminta o que o José Simão chama de predestinação. Na dúvida, com esse nome, pensarei duas vezes antes de estacionar meu carro ali. Não me livraria da impressão de estar em perigo.

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