Rubem Penz

“Não te mete” é um dos mais antigos conselhos e, também, um dos mais sábios que eu conheço. Um alerta para as futuras consequências a serem suportadas por pessoas impulsivas, inconformadas, inquietas e, claro, intrometidas. Um fusível para conter o ímpeto emocional. Porém, como quase todo antigo e sábio conselho, ele é quase sempre inútil. Explico. Ao ser ofertado para os naturalmente reservados, acaba como chover no molhado. Quando dito aos que não se contêm, termina pouco eficaz. Aliás, algumas vezes este conselho soará como um desafio: “Agora mesmo é que eu vou!”.

Todos sabem que macaco velho não mete a mão em cumbuca, isto é, ou meteu quando jovem, ficou preso e aprendeu a lição; ou nunca meteu, envelhecendo sem jamais ver trancada sua mão. O galho (de cada macaco) é convencer um tipo mais sanguíneo a aderir às vantagens de quem não mete o nariz onde não é chamado. São pessoas mais rápidas do que Cisco Kid para sacar suas colheres e enfiá-las na primeira panela que promete entornar o caldo. Estes, divido em dois grupos: os apaziguadores e os incendiários. Os apaziguadores até metem o dedo na ferida, mas o fazem com o objetivo de higienizar as ideias, suturar o conflito, proteger as partes com um bom curativo. Fazem parte da “turma do deixa disso”: tomam a frente para acalmar os ânimos.

Os incendiários, ao contrário, metem os peitos tomando partido. Em sua face nobre, são as pessoas que não podem ver uma injustiça, uma maldade ou uma covardia sem intervir de modo veemente: passam descomposturas, ameaçam, prometem agressões. Normalmente, metem mais medo do que respeito. São extremamente eficazes enquanto não encontram, do outro lado, um metido a besta. É quando a rosca engrossa e tudo pode dar em tragédia. Por outro lado, em sua face sombria, os incendiários são usados como massa de manobra por pessoas inescrupulosas – elas mesmas covardes e sectárias, interessadas apenas em reforçar o seu ponto de vista, poder ou agremiação. Uns, incendiários movidos por extrema empatia; outros, totalmente desprovidos dela.

Toda essa conversa tem um só motivo: como se aproxima o dia 15 de março e dois lados da política nacional estão “se prometendo” horrores, sabendo que sou cronista, um bom camarada logo aconselhou: “Não te mete!”. Sim, neste caso, é grande a chance de meter os pés pelas mãos ao se meter de pato a ganso. O problema é que sou metido como dedo em nariz de piá. Por isso, aos muitos amigos que tenho nos dois lados da contenda, peço encarecidamente: não acusem nem defendam os que não merecem. Há joio e trigo nos dois lados da fronteira. E uma batalha maior a ser vencida: o fim do uso privado da coisa pública. Entendam isso como aprouver.

Crônica publicada no Metro Jornal Porto Alegre

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