Rubem Penz

José,

Anuncio que criarás um filho. Não uma pessoa qualquer: ele será único, coração puro e, ao seu redor, muitos terão motivos para sentirem-se inspirados. Virá com propósitos a cumprir, trajetória marcada por grandes feitos já antecipados em profecias. Será visto e admirado. Teu filho, José, virá com uma missão particular. Precisará de uma infância protegida e de um guia vigilante em sua juventude. Deixará o lar para outras paragens e, na bagagem, levará consigo bens preciosos: o sorriso, o orgulho e o carinho dos pais.

Porém, ele sofrerá as piores dores e humilhações. Será imolado, traído e crucificado. Até mesmo seus fiéis amigos negarão tê-lo conhecido temendo as consequências. Conhecerá a mais vil face da humanidade e, nem assim, se desviará do rumo a ele destinado. Partirá cedo, este Meu e teu filho, José, sem gerar para ti desejados netos. Aceitas?

José,

Anuncio um filho, teu, natural. Não uma pessoa qualquer: ele será único, coração valente e, ao seu redor, muitos terão motivos para sentirem-se inspirados. Virá com propósitos a cumprir, trajetória marcada por voos elevados. Será visto e admirado. Teu filho, José, virá com uma missão particular. Precisará de uma infância protegida e de um guia vigilante em sua juventude. Deixará o lar para outras paragens e, na bagagem, levará consigo bens preciosos: o sorriso, o orgulho e o carinho dos pais.

Para ele, coube nascer onde não há guerras. Desconhecerá para si a fome que assola muitos de seus irmãos. Será poupado das penas dos enfermos, das humilhações dos escravizados, das angústias dos desvalidos. Em seu caminho haverá alguma dor, por certo, uma vez que sem ela ninguém saberia amar. Porém, partirá cedo, este Meu e teu filho, ainda antes de gerar para ti desejados netos. Aceitas?

Josés,

Fiz, como sempre faço, estes anúncios fora do espaço ou tempo no qual existo e existem todos aqueles que creem em Mim. E assistindo a humana essência, ao vê-los chorar a partida dos filhos, ao viverem a lancinante dor da perda, ainda assim confio plenamente que, mesmo diante da tragédia, ao mesmo anúncio responderiam outra vez – e sempre – sim, meu Deus, aceito a bênção de ser pai deste menino chamado Jesus; deste menino chamado Andrei.

Esta crônica foi originalmente publicada no Metro Jornal em 23.06.15. É dedicada ao meu tio José Roberto Penz e em memória ao primo Andrei Penz.

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