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Sobre boatos, benefícios e obrigações

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Coluna do Metro Porto Alegre em 22.05.2013

SOBRE BOATOS, BENEFÍCIOS E OBRIGAÇÕES

Experimente passar um mês entregando um pãozinho ao mendigo que dorme debaixo da marquise a caminho do seu trabalho. Um sorriso, um bom dia, um pão. Em trinta dias, você terá alguém que reconhece seus passos ao cruzar a esquina, um olhar que acompanha faceiro sua chagada, um amigo fiel. Então, de uma hora para o outra, deixe de dar o alimento – sem modificar o trajeto. Prepare-se: depois de enfrentar a revolta nos primeiros momentos, virá o rancor de toda uma vida a contaminar a relação.

Antes nunca tivesse ajudado o pobre homem… Como diz o ditado, favores repetidos se tornam obrigações. Até a legislação trabalhista adota tal preceito quando incorpora aos proventos qualquer benefício que se estenda por longo período. É facultada a iniciativa de conceder, mas é vetado o direito de retirar. Ninguém examina as razões para a interrupção de uma ação positiva, se ela é necessária ou justa. O que fica é a patente obrigação de nunca mais sustá-la.

Lembrei-me disso assistindo à cobertura de um boato muito elucidativo. Correu à boca pequena rumores sobre o suposto fim do programa Bolsa Família. De modo desencontrado, havia também a hipótese de um dinheiro extemporâneo lá depositado. Numa velocidade inacreditável, misteriosa e assustadora, correram às agências da Caixa Federal uma incontrolável quantidade de pessoas, ocasionando filas diante de lojas fechadas (estávamos no final de semana), tumultos e depredações.

Segundo pude acompanhar, a cúpula do governo agiu o mais rapidamente possível para desmentir tais calúnias, garantindo que os proventos do governo ao Bolsa Família estão assegurados e obedecerão o cronograma de repasses com pontualidade britânica. O porta-voz da dos responsáveis pelo programa assistencial também prometeu a célere investigação de onde teria partido tal boato, e com qual intenção. Isso num ritmo mais condizente com os relógios nacionais, claro.

O episódio me trouxe algumas inquietações. Primeira: ninguém mais em sã consciência retira das costas do contribuinte essa mesada institucional. Segunda: ao desejar (precisar?) fazê-lo, terá o rancor eterno de milhares de pessoas. Terceira: se o responsável pelo boato almejava auferir as hipóteses anteriores, conseguiu. Quarta: pior para mim, resolvido a tocar no espinhoso assunto. Afinal, a mesma ação que noutros tempos seria taxada de compra de votos, hoje é erradicação da miséria, deixando quem eventualmente a questiona na posição de o “monstro do pãozinho”.

 

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