Rufar dos Tambores 522

Sobre música e orquídeas

Grupos musicais podem nascer por inseminação artificial (agentes externos aproximam gametas e oferecem ambiente propício e controlado). Estes, assim que gestados, são paridos em cesariana (hora marcada para chegar até o público). Porém, existe outro caminho a ser descrito como a via natural para tudo acontecer: jovens com afinidades musicais e razoável domínio de instrumentos complementares se encontram numa garagem e fecundam o embrião da arte. A seguir, ou teremos um parto normal (resultado de uma gestação variável no tempo, mas constante na maturidade), ou um aborto espontâneo. Nem um caso nem outro garantem longevidade ou maestria. Porém, a autenticidade virá predominantemente pelo caminho natural.

Como em orquídeas, há também a clonagem. Todos os clones musicais nascem artificialmente. Empresários identificam um modismo que pode ser explorado (planta bonita) e produzem artistas ou grupos idênticos, cópias uns dos outros, criando artificialmente a impressão de geração musical. Isso não significa que, na natureza, a sonoridade deixe de apresentar alguma constância. Ao contrário: a figura da geração musical existe e ocorre de modo espontâneo. São músicos influenciados pelos mesmos mestres e que estão sujeitos aos mesmos estímulos. Assim, tendem a compor e executar em forma de onda. A clonagem, no caso, se aplica aos que se movem sobre a onda, sem necessariamente produzi-la.

Nas provetas dos estúdios surge apenas aquilo que costumamos chamar de entretenimento. Músicas às vezes lindas, quase sempre bem executadas e urdidas, com chance de até, por acidente, serem elevadas ao patamar da arte numa releitura. Digo “por acidente” porque são pensadas tão somente para agradar – dispensando a priori um dos elementos essenciais da arte: a capacidade de desestabilizar quem a vê, escuta ou sente. Tão mais popular e exitoso será um tema comercial, quanto mais previsível for o próximo acorde ou o verso seguinte. O público é quase chamado à coautoria. Erra quem imagina que isso seja fácil de fazer. Se assim fosse, eu mesmo o faria – ganhar dinheiro é uma delícia.

Até hoje, só tive experiências musicais concebidas de modo espontâneo (bandas de garagem). Projetos que o tempo abortou ou que nasceram de parto natural, sobrevivendo sem as vitaminas da indústria do entretenimento. Como orquídea na mata, pouco floresci. Ora faltou sol, ora sobrou chuva… Nunca coloquei essa arte no melhor tronco da floresta – aquele que desse à expressão a chance de ser vistosa. Mas, dos poucos méritos que colho de tal alternativa, um é inegável: optei pela vertente da arte. Não sou raro nem tão belo, mas me recuso a ser cópia. A esperança é alguém se dispor a entrar no mato para descobrir o que faço. E ir papar num orquidário musical. Sempre é tempo.

 

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