Rufar dos Tambores 512

TPM X TPF

Rubem Penz

Esses dias eu levei um puxão de orelhas tão forte, mas tão forte, que cheguei ficar nervoso. Criara uma letra de música e os versos terminavam com uma menção à TPM (Tensão Pré Menstrual) inserida num contexto simplificador. Mostrei a uma moça de bom gosto e ela assumiu o papel crítico sem piedade. Aliás, fez a pior espécie de observação: disse que esperava mais de mim, homem sensível e informado. Tentei explicar que a MPB, do mesmo modo que a crônica, alimenta-se de alguns clichês, vide Vinícius em sua Garota de Ipanema. Então deixa, disse-me ela, com franco desagrado. Não deixei. Mudei e – pior! – ficou melhor.

Mas, do papo, o que mais me chamou a atenção é o fato de ela dizer que a TPM – da qual nem todas as moças padecem (em muitas é só um raso desconforto) – é fixinha perto da TPF, fenômeno tipicamente masculino (mas não só, digo eu). Referia-se à Tensão Pós Futebol. Enquanto uma é lunar, regida pelo ciclo hormonal, a TPF ocorre uma ou duas vezes por semana. Toda segunda-feira, quando não em quintas e sextas, muitos colegas dela de trabalho estão com um humor do cão, tudo por causa do desempenho de seus clubes no campeonato. Quanto mais fanático, mais forte a TPF.

Se não bastasse o fato de ela ocorrer em um espaçamento de tempo menor, a tensão masculina sofre um agravante: enquanto o ciclo menstrual raramente é assunto, o fracasso futebolístico domina todas as conversas. Ninguém, ao perceber que uma mulher está de TPM, manda e-mails alusivos. No caso da TPF, a caixa de mensagens lota de tanta flauta. Sim, pois o fracasso de uns é a alegria de outros, e vice-versa. O que faz piorar sensivelmente o humor de quem já está de cabeça inchada.

Numa mulher com TPM, tudo irrita, nada presta e não há paz. Incrível: são exatamente os sintomas da TPF! Durante a crise masculina, elas se veem forçadas a conviver com homens a beira de um ataque de nervos. Tornam-se agressivos, impacientes, deprimidos… Um trapo. É o momento de deixá-los quietos, curando as mágoas nascidas daquele gol perdido, do frango, das decisões equivocadas dos treinadores ou da atuação precária do árbitro. Remoendo cada lance impresso na memória.

Outra diferença entre a TPM e a TPF é que só a segunda gera o efeito invertido em alguns humanos: a euforia patológica da flauta desmedida. Em todo resultado imprevisível e a cada rodada de clássicos, enquanto uns sofrem de TPF, outros surtam e acordam demônios sádicos dispostos às últimas consequências para fazer os torcedores adversários sofrerem ainda mais. Investem tempo e energia criando montagens para colocar em redes sociais, telefonam, debocham… Quando a turma não sai no tapa, mesmo.

Findo o balanço entre TPM e TPF, fui obrigado a concordar que nosso problema é mais grave. Assim, uso o espaço da crônica para me desculpar com todas as meninas com quem convivo, pois assumo ficar abatido quando assisto uma rara apresentação sofrível do meu querido Internacional. Nas muitas vezes em que rival gaúcho naufraga, não padeço de euforia aguda – no máximo gero um desconforto nos adversários, mais em função de eles não me deixarem em paz, também. E prometo ser paciente com o tobogã hormonal feminino – tanto que mudei a letra da música. Seus encantos compensam esse mal com folga.

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