Coluna do Metro Porto Alegre em 10.09.2013

Eu era menino e, num determinado domingo de janeiro, valia a pena voltar mais cedo do mar. Uma espécie de ritual de masculinidade me aguardava: estar junto com o pai, tios e seus amigos preparando um churrasco para assistir ao Grande Prêmio da Argentina, prova que abria o circuito anual da F1 (Fórmula 1). Os astros do momento eram Carlos Reutemann, Jody Scheckter, Jacky Ickx, Ronnie Peterson, Niki Lauda, Patrick Depailler e, claro, os brasileiros Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace. As mulheres da casa nem passavam por perto da TV.

Nunca cheguei a ser daqueles fanáticos por motores, do tipo que viaja para assistir os GPs ao vivo ou corre em categorias menores. Aliás, sequer num singelo kart eu pousei meu assento – o que dá uma pista da distância entre apreciar e viver a coisa com intensidade. Se disser que nunca levei multas, mesmo passando por uns seis pardais nos caminhos cotidianos e trilhar por avenidas nas quais os radares móveis são quase fixos, isso pode depor contra minha macheza, mas é fato. O que me coloca diante da TV até hoje acompanhando a temporada de F1 é o fascínio pelo engenho (máquina) e a confirmação de que a diferença sempre esteve com os pilotos.

Na infância, os patrocinadores do glamouroso campeonato se concentravam total e absolutamente nos produtos destinados aos homens (publicitário sabe o que faz). Logo, dominavam as bebidas, cigarros e marcas de automóveis, combustíveis e acessórios. Também produtos de alto luxo. A testosterona parecia um derivado do petróleo e nossa potência era medida em cavalos. Sob os capacetes (novos elmos) e as balaclavas (qualquer semelhança com batalhas medievais nunca será coincidência), os heróis do Século 20 testavam os limites da coragem, muitos pagando o preço com suas vidas.

Nestes cerca de quarenta anos, muita coisa segue igual. Mudaram outras tantas. Nas pistas, as moças continuam em funções decorativas. Por sua vez, o cigarro (banido dos patrocínios) perdeu prestígio. Os engenheiros seguem em alta, mas a bebida que mais investe na atualidade não é alcoólica – sua base é cafeína. Os pilotos, óbvio, ainda são exemplos de masculinidade. Contudo, a capacidade técnica, parceira da tecnologia, parece empalidecer os antigos traços de arrojo, outrora predominantes. Por fim, domingo passado, para minha surpresa, um dos intervalos comerciais foi ocupado por um filme vendendo lavadora de roupa. Na última cena, o homem e a máquina. É… Como na F1, tudo está se transformando em alta velocidade.

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