Rubem Penz

No encontro das horas, nos pratos da balança, nos exames de consciência, vamos de mal a pior, ou de mal a melhor?

Boa pergunta. E pude auferir algumas respostas na semana passada, pois tive a ventura de conduzir uma breve oficina de criação literária sobre o gênero crônica na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, em Novo Hamburgo. Tudo de bom: rever uma cidade na qual tenho raízes, ter mais de duas dezenas de alunos aderindo ao programa de forma opcional e voluntária, encontrar com professores dignos do nobre ofício e olhar os jovens nos olhos, de perto, ao rés do chão. Atividades como essa têm valor inestimável.

Depois de uma breve exposição teórica, propus aos meninos e meninas um desafio criativo: individualmente, metade do grupo escreveria uma crônica epistolar (uma carta) para alguém no ano de 1917, a outra metade para uma pessoa no ano de 2117 – ressalto serem eles jovens nascidos por volta da virada do século 21. O que teriam a dizer sobre o presente para cem anos no passado, cem para adiante? Antes de tudo, esperei retirar da proposta a confirmação do otimismo que teimo em cultivar num singelo vaso que pega sol neste parapeito de janela que me coube para mirar o tempo.

Intercalei a leitura dos textos entre os dois grupos e, na medida em que acontecia, algumas evidências se tornaram claras. Primeiro: havia um enorme desencanto quando se reportaram aos antepassados. Foram muitas denúncias sobre a persistente desigualdade social, a degradação da natureza, as guerras e a miséria humana. Bem pouco sobre os enormes avanços experimentados no século 20 (como o fato de terem em seus bolsos um telefone com capacidades outrora impensáveis, os gigantescos avanços na medicina ou o nascimento da ONU). Não os condeno, muito ao contrário: tanto progresso para a dignidade humana e a segurança planetária seguirem ameaçadas.

O mais importante, porém, foi o florescer de alguma esperança nas cartas endereçadas ao futuro. Não que tenham sido mensagens edificantes: o tom melancólico suplantou a graça e a leveza. O que comemoro são pequenos panoramas que contradizem a onda apocalíptica prometida pelas atuais páginas do jornal. Poxa, se nem garotos conseguissem ter boas perspectivas, o que sobraria para nós, adultos? Sei que abundam informações para quem crê vivermos em meio ao cenário de terra arrasada. Ainda assim, prefiro seguir regando meu vasinho de otimismo, nem que seja com conta-gotas – tal como nessas três horas vividas com literatura e afeto.

 

Crônica publicada no Metro Jornal em 06.06.17

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