Publicada no Metro Jornal em 25.02.14

“Não sou mais que um homem, meu amor. Humildemente um homem.”

Antônio Maria

Ando passando uns dias, longos dias, na companhia da ausência. O amor, sentimento que prezo muito, o qual sempre procurei cultivar na intimidade mais recolhida, abaixo da roupa, na pele; ou mais para dentro ainda, no coração, comprou uma passagem de ida e se foi em busca de insuspeitados destinos. Pediu que o levasse na rodoviária, até, confiando em minha obediência aos caprichos do amor. Pensam que simplesmente obedeci? Não! Fui muito além: carreguei bagagem, abanei para aquele ônibus branco, fiquei na rampa segurando o bilhete do estacionamento como quem traz consigo um protocolo.

A todo momento, desde então, olho no vão da porta esperando um telegrama, um cartão postal, uma carta. O amor não manda lembranças. Não havendo correspondência, também não há endereço de remetente para o qual eu possa dar notícias minhas. Disfarçar, mostrando-me feliz e realizado sem ele. No íntimo desejava ler as queixas do meu amor sobre a vida que tem levado, de como faço falta, da rotina vazia desde sua partida (aquilo que, sendo sincero, escreveria eu). Fotos maravilhosas cercado de gente bonita em festas intermináveis de verões amenos também cumpririam uma função: fazer com que eu esquecesse o meu amor de vez por todas. Nada disso. Apenas o silêncio. Amor sumido não é o mesmo que amor morto. Não dá prazo para luto.

Se o desejo foi me dar uma lição, rogaria para que essa crônica chegasse até ele ainda hoje e, nas mal traçadas linhas, meu clamor: basta! Considere-me castigado. Serei mais zeloso, menos mesquinho, sorrirei todas as manhãs. Prometo. Descuidar-se do amor é grave, mas devagarinho fazemos isso, um pouco a cada dia, parecido com o envelhecer. Não devo ter sido o único a falhar com o amor. Nem o que mais falhou. Por que o castigo demora tanto, silencia tanto, angustia tanto? Meu amor, volta. Sou um novo homem. Ou um homem velho com intenções renovadas. Duvido que você tenha esquecido de mim.

Com você de volta, tenho planos para nós. Bons planos. Capazes de resgatar dias memoráveis. Pretendo oferecer você, o meu amor, para uma mulher especial. Bela aos meus olhos, que não sou homem de enamorar almas rotas. Alegre em nos receber e disposta a retribuir. Por enquanto, eu, árido, triste, apenas decepciono quem se aproxima. A pior notícia, porém, é ter descoberto que sobrevivo sem você, meu amor. Não, isso não é uma chantagem: é uma indesejada libertação.

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