Rubem Penz

Com a democracia em xeque (perdão pelo trocadilho), uma das hipóteses de reforma política que circula nas entranhas federais é a lista fechada – não mais votar em um membro nominado. O corpo (o corporativismo) sobrepondo a parte. Daí você, obrigado a escolher, analisaria o tal corpo para planejar o voto. Por exemplo:

Vê as orelhas e pensa: é isso que me serve – preciso ser escutado. Você, não: a sociedade inteira em seus clamores por honestidade, justiça, equidade, respeito. A incontestável voz das ruas. E, pensando nas orelhas, vota naquele corpo. Mas no topo da lista está a boca, aquela que promete, dita, brada e… morde. Ah, como são afiados os dentes do corpo partidário.

Vê o coração e pensa: é isso que me serve – falta compaixão nas decisões políticas. Ofertar tanto mais quanto for possível a igualdade de oportunidades para uma disputa equânime, equilibrada e, com isso, justa no momento de bem premiar méritos. E, pensando no coração, vota naquele corpo. Mas no ápice da lista está o intestino a produzir fétido excremento.

Vê as mãos e pensa: é isso que me serve – mais cooperação na coisa pública. De mãos dadas seremos fortes como uma corrente. Apertos de mãos também servirão como garantidores quando chegar o momento de cobrarmos as promessas. E, pensando nas mãos, bate palmas e vota naquele corpo. Porém, com os valores de cabeça para baixo, real e metaforicamente, no cume da lista estão os pés. Deles, meus caros, virão os chutes.

Vê os pulmões e pensa: é isso que me serve – muito oxigênio nos planos estratégicos. Novas ideias, mais arejadas, livres e leves. Límpidas. Sustentáveis, renováveis, respiráveis. A plenos pulmões teremos fôlego para trilhar o caminho do desenvolvimento. E, pensando nos pulmões, vota naquele corpo. Mas no alto da lista estão os rancorosos cotovelos com suas dores. Logo eles que odeiam o novo e justificam o passado sem glórias sempre culpando os outros.

Vê o cérebro e pensa: é isso que me serve – ser guiado pela inteligência. Ter como comandante o membro mais capaz de acumular conhecimento, refletir com base sólida, concluir servindo-se da razão. Quem faz contas e respeita os números. Usa a lógica nas decisões. Reverencia o legado e imagina, vislumbra, cria! Assim, pensando no cérebro, vota naquele corpo. Mas a cabeça da lista não está sobre os ombros, e sim na cintura pélvica. Depois, a surpresa de permanecermos passivos e ferrados.

É: político vive querendo blindagem. Pensa ter o corpo fechado.

Crônica publicada no Metro Jornal em 21.01.2017

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