Crônicas de Botequim

Incontrolável fundão

Incontrolável fundão

RubemPenz

Por força das circunstâncias, do destino e de boa dose de privilégios, habito o admirável mundo novo das aulas presenciais em EAD (Ensino a Distância). E hoje, mais de um ano depois desta modalidade se tornar imperativa – e de eu estar um pouco mais habituado –, posso garantir uma coisa: tudo continua igual, tudo mudou. Ou seja, se professores nunca foram capazes de ler o pensamento dos alunos e, assim, sempre estiveram restritos aos limitados sistemas de aferição de desempenho, agora mesmo que a vaca foi parar no brejo digital.

Sou tão entusiasta do convívio presencial analógico a ponto de ter migrado para o modo circular de aulas, fugindo tanto quanto consigo do formato tradicional das cadeiras enfileiradas diante de um professor-apresentador (nem sempre é possível, claro). Esta é a melhor maneira de receber e emitir mensagens para além do conteúdo: ler expressões, gestos, posturas, olhares… Conhecer o outro, permitir-se a exposição mais próxima da fidelidade. Fazer com que a turma assuma uma personalidade coletiva na soma das individualidades. As janelas abertas na tela – quando abertas! – dificultam este trabalho.

Outro problema enorme: as conversas paralelas. Elas existem desde que o mundo é mundo, eu sei, eu fiz. Mas diante de um professor real havia uma chance de controle, um pedido de psiu, um olhar acusatório. Em EAD todos podem habitar o fundão das telas sobrepostas, com péssimos resultados aos naturalmente dispersos. Temos ainda o chat, a conversa paralela prevista, oficial, espaço régio dos tagarelas. Conversando com a minha filha, soube que há um movimento para mestres contarem com monitores presentes só para administrar os chats, uma vez que é impossível o professor cuidar de tudo sozinho.

A mais recente notícia neste assunto é a crença de que nada mais será como antigamente, ou seja, ambos os ambientes, físico e virtual, tendem a permanecer em equilíbrio. Com isso, educadores precisarão mais do que se reinventar: deverão compreender este aluno recém inventado, encontrar meios de suprir as lacunas deixadas pela distância. Otimistas dirão estar nascendo um estudante mais responsável e autônomo. Pessimistas, colocam todos os alunos num incontrolável fundão. E eu? Eu quero voltar para o bar, de onde jamais deveria ter saído.

 

Comentários
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo