Crônicas de Botequim

Naftalina

Naftalina

Rubem Penz

Quem olha a minha certidão de nascimento compreende a razão de eu desejar que as coisas sejam mais simples – vivi tempos assim. Não se trata de glorificar o passado. Ou se trata, sei lá. Há uma passagem na biografia do Rubem Braga que fala sobre sua relação com Cachoeiro do Itapemirim. Diz ela que o velho Braga não sentia saudade do Cachoeiro – sentia saudade de si criança. Pode ser igual comigo: meu desejo não é de voltar para uma vida simples, simplesmente para minha tenra idade.

Quando falo em simplicidade não estou me referindo aos dramas existenciais. Eles acompanham o ser humano desde tempos imemoriais – desde que passamos a ter consciência da finitude? Desde que passamos a crer em deuses? Desde que olhamos para o firmamento e nos sentimos impotentes? Desde que criamos a linguagem e, com ela, os filhos perguntando “por quê”? Enfim, faz milênios que convivemos com grilos filosóficos, e ter saudade da simplicidade de pensamento seria sentir falta de antes do polegar opositor.

Talvez minha saudade venha de coisas mais prosaicas. Tipo um armazém de secos e molhados com menos variedade de produtos na comparação com hoje – número inferior a uma só entre as dezenas de gôndolas de um supermercado pequeno. Estranhamente, o precursor da loja de conveniência tinha tudo o que precisávamos no dia-a-dia, além de o proprietário dar crédito pessoal e consultoria financeira na forma de caderno (falou com sua mãe sobre essa compra?). Tempo em que o comerciante não precisava de um coach nem milhões de seguidores para ter sucesso – bastava conhecer seus clientes pelo nome.

Quando a rotina era mais simples, quase tudo podia ser resolvido com soluções de amplo espectro: chá de macela, chave de fenda, enciclopédia, lápis, querosene, um bom cachorro. Cada uma com centenas de aplicações, cada qual com a magia de nos dar tranquilidade. Dependendo da profissão, uma mesma pessoa podia dominar todos os aspectos da atividade e concentrar o poder de decisão. Então, como fui criado neste tempo, muitas vezes imagino que ainda seja assim. E assim não continua mais.

Hoje, por exemplo, um casal de pombos voltou a rondar o beiral do telhado aqui de casa para fazer ninho. Tudo nisso me desagrada: os cocôs manchando a pintura, o arrulhar que perturba, o cheiro desagradável e as doenças que esses pássaros podem trazer para dentro de casa. E qual foi minha primeira ideia? Comprar naftalina para colocar no recanto que as pombas amam (e se amam). Esse sou eu: alguém que acredita em soluções antigas como antigo é apelar para naftalina na esperança de ser resolução para tudo.

Preciso passar no armazém.

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