Crônicas de Botequim

Faixa de segurança

Faixa de segurança

Rubem Penz

Domingo passado, final da manhã, sozinho no carro, o sinal ficou vermelho bem na altura do Colégio Desiderio Torquato Finamor, na Av. Bento Gonçalves. É um semáforo para pedestres, e meu carro foi o primeiro a chegar. Parei, claro, e fiquei olhando a cena. Do corredor de ônibus para a calçada partiu um senhor. Da calçada para o corredor, uma moça. Bem no centro da via se cruzaram, cada um com seus pensamentos e compromissos e aflições e ternuras. E havia uma esperança ali presente. Explico.

O homem era maduro – mais de quarenta anos, menos de 55, provavelmente. Vestia-se como um gaúcho, ainda que urbano: boina, camisa branca, lenço no pescoço, colete cinza, calça jeans branca e botas pretas. Na mão direita a bolsa de couro com uma garrafa térmica e a cuia de chimarrão. Ostentava um bigode discreto, tinha a compleição forte de quem trabalha, ou já trabalhou, com a força dos braços. Parecia mais voltar do que ir.

A mulher era jovem – se muito uns 25 anos de idade. Arrisco bem menos, mas é difícil julgar a juventude tão rapidamente e à distância. Tinha os cabelos pintados de lilás e estavam arrumados em incontáveis trancinhas presas num rabo de cavalo alto. Vestia roupas coloridas – uma regata larga em tom de amarelo clarinho sobre um top lilás alguns tons abaixo que o do cabelo. Sua legging era azul turquesa não chegava em um tênis branco com detalhes em cor-de-rosa. A bolsa a tiracolo estava fora da minha visão. Tinha um frescor delicado e parecia mais ir do que voltar.

E isso é tudo o que mais fascina quem gosta de pessoas: as diferenças.

Como reparei em tudo isso se não chegou a um minuto? [sim, sei: se vai mentir, capriche nos detalhes e ninguém desconfiará] Pois a fotografia impressionou a memória por causa da beleza dos contrastes. Ambos estavam lindíssimos, os dois não poderiam ser mais diferentes. Com certeza não escutam as mesmas músicas, não frequentam os mesmos lugares, têm gostos diferentes para quase tudo e percebem o mundo sob óticas distintas. São estranhos entre si (nem se olharam) e, ao mesmo tempo, poderiam ser confundidos com pai e filha por um passante, caso estivessem a trilhar lado a lado.

E isso é tudo o que mais fascina quem gosta de pessoas: as diferenças. É do caldeirão de tendências e pensamentos e sentimentos e crenças e cores e idades e influências e portes e profissões e hábitos alimentares e paixões e revoltas que nasce a graça de estarmos vivos. Por que desejar que todos sejam parecidos comigo, se nem eu sou o mesmo que outrora fui? Como exigir respeito sem oferecê-lo em contrapartida? [hoje parece difícil, né?]

Ah, cada vez mais desejo pensar no que nos une, cada vez menos naquilo que nos separa. Talvez imaginar a cena coroada com um bom-dia trocado pelo senhor e pela moça. Não seria lindo?

***

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