Crônicas de Botequim

Pegadas

Pegadas

Rubem Penz

Não é novidade para ninguém o sucesso de público para testemunhais inspiradores como as palestras TED e outras na mesma linha. Histórias de superação, sucesso, transformações, sobrevivência… Lições de vida, como diríamos antigamente – era assim que meus pais se referiam às pessoas que passaram pelo mundo deixando mais do que simples pegadas na areia da praia. É difícil não se emocionar e, muitas vezes, resistir às lágrimas. Também é lindo ver a plateia enfeitiçada pelas palavras. Caso você seja fã destas atrações, ou mesmo um simpatizante, vou pontuar algumas coisas que farão sentido.

Em primeiro lugar, basta ter visto três ou quatro para notarmos uma constante: são muitos os caminhos para driblar as dificuldades. Sabe por quê? Pela simples razão de que elas, as dificuldade, são diferentes o tempo inteiro. Ainda ontem na história, antes da penicilina (1928), sobreviver aos primeiros anos de vida já era um desafio – época em que era muito comum o termo “filhos vivos” para citar a prole. Há rincões de miséria absoluta nos quais sobreviver ainda pode ser considerado uma façanha? Sim, digo triste. Mas ter alcançado os cinco anos não conta como conquista para muitos de nós ou nossos filhos. E este exemplo extremo não menospreza as dificuldades atuais, apenas está aqui para reforço de argumento.

“Segundamente”, como poderia dizer Odorico Paraguaçu, as receitas também são diversas. Nem mesmo a perseverança, qualidade mais badalada de todas em minha juventude (acho que as mortes do Paulo José e Tarcísio Meira me deixaram saudosista), serve como luva para todos os desafios. Ao insistir – eis o horror dos horrores – também insistimos nos erros. Para cada sucesso advindo da teimosia, empilham-se fracassos retumbantes. E quando se escolhe um termo da atualidade, como fluidez, tudo se repete: a vitória poderia estar na firmeza em pontos até questionáveis. Não é por acaso que a inovação viceja em estruturas menores: só elas, por terem pouco a perder, topam o risco de perder muitas vezes.

Agora, se os problemas diferem e as soluções são múltiplas, qual o sentido de vibrarmos com testemunhais inspiradores? Se o que funcionou ali pode dar em nada ao ser reprisado conosco, por que nos sentimos tão bem durante os aplausos finais? Uma resposta possível é o consolo que nasce da constatação de serem problemas e soluções a mesma argila bruta ofertada para todos, indistintamente. Vou além: as mais belas histórias combinam com quem precisou superar o maior número de dificuldades, deixando os privilegiados desconfortáveis com suas pegadas rasas. Por fim, tão mais fará sentido a experiência dividida no palco, muito mais importante ela será para o público, quanto maior impacto surtiu para a sociedade. Quando nossa força vital carrega em seus ombros o peso de outras vidas, muitas marés virão antes de sumir nosso trilho.

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