Crônicas de Botequim

Meus olhos, minhas regras

Meus olhos, minhas regras

Rubem Penz

Meu amor, juro por Deus, me sinto incendiar

Vinicius de Moraes

Quanto mais a gente explica, pior vai ficando, sabe? Isso porque, pelo certo, não deveria ser assim como é. Deveríamos estar no absoluto controle de nossas pulsões, com o desejo domesticado, adormecido ou mesmo extinto. Um desinteresse insípido, ameno e morno, imune à paisagem. Afinal, raramente chega a ser uma cobiça real, muito menos urgente – falo por mim, é claro, e nem sei se um detector de mentiras faria picadinho de meu propagado auto-controle.

Uma vez que é tão difícil de lidar com o atávico, bem-vindo seria um interruptor nas pálpebras. Porém, a coisa está mais para o funcionamento dos disjuntores: suportam bem a tensão normal e, quando ela extrapola os índices esperados, cai a chave. O drama é ser o contrário da peça de segurança: o tal disjuntor nos acende ao invés de apagar. Há quem tenha o seu com poucos amperes, resistindo nada diante de muito pouco. Outros resistem muito até mesmo diante de uma maravilha de cenário. O homem médio costuma ser vítima de uma rede instável.

Já perdi todas as esperanças de ter a redenção do corpo, restará a alma para escrutínio póstumo.

Elas – e digo todas elas – não entendem. Nunca compreenderam e jamais aceitarão: estou aqui a pregar no deserto. Colocam a culpa na gente, nós atiramos a culpa para a natureza, mas a natureza nos devolve num piscar de olhos. É preciso lidar com essa força como quem resiste à gravidade: ao nascermos ela já está presente e, concordemos com ela ou não, pesará sobre nossos ombros sem que nada possa ser feito, a não ser nos mantermos fortes. Mais do que fortes, equilibrados. E eretos. Força e equilíbrio em corda bamba.

Se quero dizer com tudo isso que não há saída? Entenda como bem lhe aprouver. Já perdi todas as esperanças de ter a redenção do corpo, restará a alma para escrutínio póstumo. Juízo ou prejuízo ao final, só Deus sabe. Ele tudo vê sem precisar dar explicações ao eleitorado – ah, que inveja. Minha teoria era ter recebido alguma luz ao falar do assunto, mas esse túnel é deveras longo.

Um dia, um belo dia, serei um homem de coragem. Mandarei fazer uma camiseta com os seguintes dizeres: meus olhos, minhas regras. E a vestirei sem óculos escuros. Um dia, quem sabe.

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