Crônicas de Botequim

Sete de setembro de 1990

Sete de Setembro de 1990

Rubem Penz

Independência, diz a razão do feriado. Talvez por isso eu tenha um Sete de Setembro memorável, o único do qual lembro claramente ser um dia especial. Explicação necessária: não estudei em um colégio muito chegado às comemorações da pátria amada, idolatrada, salve-salve. O máximo era um dia perfilado para ver algum dos escoteiros hastear a bandeira ao lado do diretor do momento. Por isso, estranhava bastante a empolgação da mãe ao recordar emocionada de seus desfiles estudantis em Novo Hamburgo – a efeméride mais importante do ano escolar, com direito a pompa e circunstância.

Voltando ao “meu” setembro inesquecível, ele aconteceu em 1990 – portanto lá se vão mais de trinta anos. Estava com 26 recém completados e habitava o primeiro apartamento “fora da casa dos pais”. Recordo de ter acordado cedo e que fazia sol. A temperatura era amena, o movimento da cidade oferecia um silêncio agradável e eu estava recém-casado. Na profissão, ocupava o lugar que escolhera, a redação publicitária, e aquele dia estava com ares de eternidade: sim, este sou eu, gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso. O futuro espelhava minha grandeza.

Pela porta da sacada podia ver os caças da Força Aérea em formação rumando para o Centro de Porto Alegre – passariam sobre as cabeças dos generais, do Prefeito, Governador e demais autoridades perfiladas no palanque. E o povo, ocupando as laterais da via, aplaudia o desfile cívico-militar. Como o edifício era distante, a TV estava ligada para aproveitar a festa. O Brasil tinha uma Constituição “cidadã”, o regime democrático se restabelecia aos poucos e tudo isso me fazia feliz e esperançoso. Sentia-me um adulto completo.

Que dia! Guardo no peito – o melhor suporte para as memórias duradouras – a impressão de plenitude jamais experimentada. Formatura? Casamento? Bacana, festa e tal. Porém, refiro-me a outro tipo de importância – uma sem data-convite-festa-presentes. Algo mais ligado ao ser do que ao estar. Uma coisa de se olhar no espelho e gostar do que é visto; olhar para os lados e sentir-se completo; olhar para trás e descobrir que valeu a pena. Um nascimento. Os caças voavam para mim.

Bom… Antes de eu completar 28 já estava separado e vivendo uma crise pessoal gigantesca. Também vivíamos a época de Sarney e Collor e seus planos econômicos desastrosos. Ou seja: desandou geral minha maionese. A favor do destino é que eu já havia alcançado um novo patamar, bastava me reerguer. E, nisso, sou igual a você, leitor – cada um em sua história com seu Sete de Setembro particular, ao rufar dos tambores.

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