Crônicas de Botequim

Sobrancelhas

Sobrancelhas

Rubem Penz

O anjinho no ombro me assopra: desista, quem não tem, não deve falar sobre sobrancelhas. Bom, meu anjo, ter eu até tenho, pífia e clara. Ela exige uma proximidade íntima – quase carnal – para ser vista. Dizer que nasci sem elas é uma simplificação útil quando se deseja manter uma distância educada (e não trocar respirações ou prenúncio de um beijo). O problema é que, com o advento das máscaras na pandemia, os olhos, os cílios e as sobrancelhas ganharam protagonismo em nossa face. E a tentação foi maior do que a prudência.

Fato: aquilo que se convencionou chamar de design de sobrancelhas não é novidade. Vou começar pelo (!) que conheço: na minha infância, mulheres com sobrancelhas fartas chamavam tanta atenção como se estivessem sem depilar as axilas ao vestir blusas de alcinha. A moda era existir um risco finíssimo sobre os olhos, quase tão delgado como um um fio atrás do outro em fila indiana. Soube de histórias de depilares tão frenéticos a ponto de levar ao desaparecimento irreversível. Desta forma, o risco deixou de ser uma metáfora.

Devem as sobrancelhas roubar todo o meu reparar em detrimento dos olhos?

Com o passar dos anos, a moda foi mudando, mudando, mudando até o ponto “Malu Mader”. Ou seja, uma mulher de sobrancelhas escuras e fartas se tornou símbolo de beleza para uma geração inteira. Não digo que todas as pinças foram parar no fundo da gaveta do banheiro, apenas que penar diante do espelho deixou de ser um martírio para se julgar bonita (ou para julgar que os outros julguem assim). À época, existia o movimento contrário: lápis para reforçar o volume de quem, tanto quanto eu, veio ao mundo meio prejudicado.

No vai-e-vem das tendências, as sobrancelhas desenhadas por métodos de micropigmentação superficial ganhou a minha atenção recentemente por causa das máscaras. Pareceu-me mais do que moda: febre. E, junto com isso, um desconforto – por que abandonar aquilo que nos é mais caro, enfim, nossa individualidade? Será que o mesmo desenho (ou muito semelhante) combina com rostos diferentes? Devem as sobrancelhas roubar todo o meu reparar em detrimento dos olhos? Perguntas para as quais tenho minhas respostas, ainda que nem todos concordem.

Confesso que a Vanessa já fez uma simulação em mim para mostrar como ficaria caso optasse por um rosto menos exótico. A micropigmentação seria o caminho para homens do meu tipo, acostumados a rituais de beleza simplificados: escovar os dentes, lavar o rosto, pentear o cabelo e colocar desodorante. Estranhei demais. Assim como estranho as sobrancelhas todas iguais. O anjo no meu ombro adverte: não julgue! E o diabinho, lá do outro lado, se diverte: isso tudo foi só para falar da Malu Mader…

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