Rubem Penz

Este meu Outubro Rosa está diferente. E sua mudança não se dá por causa do calendário: seguirá com trinta e um dias para suceder setembro e preceder o novembro vindouro. Muito menos está alterado pela cor: desde que foi instituído como o período no qual o câncer de mama é enfrentado com a coragem da informação, ele é rosa. Particular, neste décimo mês de 2015, é não ficar preso aos espinhos contundentes ou às suaves pétalas – dois símbolos poderosos desta flor. Meu Outubro Rosa resgata o poder das folhas. Vinte e três delas. Todas bem, muito bem escritas.

Como é sabido por muita gente, rosas pegam de muda. Basta um sulco na terra e boa mão para a vida surgir viçosa. Igualmente, as folhas deste meu roseiral particular nasceram de um galho. Isto é, de um problema. Coloquei na mente fértil de nove mulheres o desafio de escrever textos sobre o câncer de mama para, com eles, compor o oitavo capítulo da antologia Santa Sede – crônicas de botequim. Ali, a coragem se uniu ao talento e, a partir da página 197, dor e superação ocupam folhas de papel. As escritoras, uma por uma, instigadas a explorar o tema de uma forma diferente, cativam o leitor pela variedade de matizes alcançados. Com isso, transformam a árida paisagem de um mal silencioso em libelo de esperança.

Mas serão vinte e três, das 256 páginas da obra, suficientes para mudar todo um outubro? Aposto um bem-me-quer e mal-me-quer que sim. Afinal, nos demais capítulos, cada um dos temas poderá ser lido com imenso interesse por mulheres que enfrentam o câncer e, nem por isso (ou exatamente nesta situação) deixam de florescer feminilidade. Mas, como? Ao invés de exames de imagem, a imagem refletida no espelho; no lugar das mãos em autoexame, filhos amamentando; para combater o desânimo, a divertida rotina dos salões de beleza. E ainda sobram páginas para tratar de sapatos, segredos, feminismo e sedução. Ah, sem esquecer da culpa, sentimento tão indesejado quanto presente.

Assim, aproveito este espaço para convidar minhas leitoras a conhecer este que, desde o princípio, foi apelidado de “Livro Rosa da Santa Sede”. Diferentemente do “book” tornado assunto em série recente, nele as mulheres não constam como objeto: são autoras de seus rumos e protagonistas de histórias de vida. Reuniram-se no primeiro semestre do ano para compor a antologia e, quinta-feira, no 15 deste Outubro Rosa, a partir das 19h30, autografam no bar onde acontece a oficina literária – o Apolinário. Um livro em que folhas podem ser ora incisivas como espinhos, ora macias como pétalas. Mas sempre encantadoras como rosas.

Crônica publicada no Metro Jornal em 13.10.15

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