Coluna do Metro Porto Alegre em 03.04.13

DESMONTANDO O CASTELO DE COPAS

Todos sabem como se monta um castelo de cartas: dispondo duas a duas em apoio solidário. Ações somadas e repetidas para a construção do objetivo maior. Dependendo de quantas cartas formarem a base (expectativas), tão mais audacioso será o projeto, o tempo que ele demandará e, claro, a alegria de chegar ao final. É uma atividade delicada, paciente, atenta. Sutil. Movimentos medidos, equilíbrio. Só há uma maneira de montar um castelo de cartas. Mas há mil maneiras de arruiná-lo.

Num tapa, enormes castelos podem desabar – e aqui valem os dois sentidos da expressão. Aliás, são os gestos bruscos (e brutos) os maiores responsáveis pela erosão deles. Afinal, é uma construção frágil, ainda que magnífica. A desistência também provoca a queda das estruturas: abandonadas, elas deixam de fazer sentido e caem de inúteis sob qualquer pretexto. Sem falar que cartas, uma a uma, não fazem castelos subir. E o que se tem visto de castelos desmanchados pela metade não é bolinho…

Vento também derruba castelos de cartas. Para ventar, bem dizem os meteorologistas, há que mudar a pressão, alterar o quadro invisível da atmosfera. Ventos são chegadas e também são fugas. Vento é movimento, viração. Parece mentira, mas aí que está a graça: quem imagina que montar castelos de cartas é colar uma na outra, deixá-lo indestrutível, está traindo o espírito da coisa. Ele é feito para ruir ao sopro do tempo. Ou se criam proteções, ou se parte para a reconstrução. Ou, claro, se abandona o projeto.

Meu momento é dedicado a uma atividade tão suave quanto a de montagem de um castelo de cartas: estou a desmontá-lo, peça a peça, sem ruir o todo ou as partes. Algo que só é possível de ser feito de cima até a base, ordenada e metodicamente, em par. Edificação pretensiosa, gigante, que deu muito trabalho para chegar a termo. Admirável em todos os sentidos. Por isso, tão atentamente desconstruída, em longa elaboração. Medida. Silente.

Quem já passou por isso bem sabe: castelos construídos em parceria, carta apoiada em carta, no dia a dia e há tantos anos, quando desmontados da mesma forma – com calma e carinho –, preservam a história. Mas essa escolha demanda muita paciência, perseverança, resolução. Exige harmonia. E, assim, garante-se, ao mesmo tempo em que promete um fim, a magnitude do feito. O ruim é que, ao cabo, restem apenas as cartas.

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