Rubem Penz

“Comunicação e Expressão” era o nome da matéria que ensinava português lá no colégio. “Matéria” era como chamávamos as disciplinas. Durante tais períodos, recebi fundamentais orientações sobre o bom uso da língua portuguesa, pelas quais sou grato. Porém, precisei de tempo, muita leitura e aprendizados conexos para compreender a real dimensão do casamento dos termos comunicação e expressão. Custou para aprender que toda palavra, mera flecha, dependerá da intensidade (pressão no arco), da direção (alvo) e da mira (precisão) para cumprir bom destino. Pior: depois de lançada, nossa flecha não retorna e nem adianta correr atrás dela, pois é muito rápida. E o que já era delicado na palavra dita, torna-se grave quando ela é escrita.

Hoje, bem mais do que naquele século quando eu estava diante da professora, vivemos o mundo da comunicação. Ela é farta em meios, instantânea e incontrolável. Onipresente. Está posta nas redes digitais e fora delas produzindo documentos, deixando rastros, delineando nosso perfil. Portanto, mais do que antes, uma pessoa precisa aprender a se expressar, sob pena de causar danos a si, às instituições, aos outros. Nunca faltará quem aponte o desastre produzido por nossa má flecha, nem se pode apagar as impressões digitais as quais nos implicam em suas consequências.

Um exemplo? “Que chamem o Batman” foi o que escreveu um tenente-coronel ao conversar por WhatsApp com dois jornalistas que indicavam reforço de policiamento em um evento noturno de Porto Alegre. Sobre a desastrada expressão, o CPC (Comando de Policiamento da Capital) buscou atenuar classificando de informal o canal utilizado. Numa entrevista, o comandante respondeu que “Não é algo que a instituição regre”, sem certeza se haverá punição ao profissional por mau uso da mensagem instantânea. Ora, devo alertar mais para cima, ao governador José Ivo Sartori: cabe ao gestor, sim, regrar e orientar sobre as consequências da comunicação de seus subordinados em todos os níveis, desde as mensagens instantâneas até a nota oficial.

Já pensou se uma instituição, seja pública ou privada, exigisse que fossem levados em conta apenas seus “pronunciamentos oficiais”, o que aconteceria? O engessamento imediato dos canais. Faz tempo que a coisa funciona diferente: a comunicação está planificada. Todos os que utilizam um endereço tipo “@instituição”, ou operam um número que responda mensagens instantâneas, falam pela pessoa jurídica, são protagonistas e responsáveis. O líder que se abstém de buscar orientação para sua equipe sobre comunicação digital, partindo do pressuposto de que todos reconhecem o peso das palavras, parou no tempo do comissário Gordon e seu telefone vermelho. Desdenhar da importância da comunicação adequada como um todo é uma flechada no pé.

Crônica publicada no Metro Jornal em 09.06.15

 

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