Rubem Penz

Meu itinerário de caminhada margeia a quadra de futebol e vôlei do condomínio. Domingo, quando passávamos, três crianças e um pai estavam numa partida de dois contra dois com goleiro-linha. Porém, o que me chamou a atenção foi um dos meninos, com a bola, narrar em voz alta sua jogada – lembrou-me a infância. Lindo notar que algumas coisas não mudam. Reparem que uma criança que narra a jogada vai além do jogo: está no mundo da fantasia. Naquele instante, há um estádio, uma grande partida em curso, torcida, comentaristas, repórteres, prestígio. Dribles desconcertantes e gols memoráveis. Eis o condão de transformar nosso cotidiano em algo glamoroso apenas pelo fato de narrar em tempo real ações minúsculas, íntimas, invisíveis. Tipo:

– Ele desperta pela manhã antes mesmo de surgir no horizonte a barra do dia. A visada da janela aberta é a primeira paisagem para olhos preguiçosos. Há nuvens e estrelas. Uma brisa suave agita sutilmente a cortina e justifica o lençol. O cheiro do mato acaricia suas narinas. Hesita em olhar para os números em vermelho do rádio-relógio: teme a insônia. Dá as costas para a janela e se concentra no contorno suave da silhueta de sua mulher. Ela dorme e ele não quer trair o sossego. Passa a se mover com mais prudência em busca do aconchego. O calor e o perfume do corpo podem ser a chave para devolver a paz e, com ela, o sono. Precisa apenas esquecer que é segunda-feira.

Ou:

– Ele fecha a porta da frente depois de apanhar o jornal e, como de hábito, lê as manchetes com vago interesse: sempre más notícias. Larga o periódico sobre o balcão, mas os fatos agora latem no rádio da cozinha. Economizaria tempo se a louça já estivesse posta desde a noite anterior. Nunca adquiriu este hábito. Liga o piloto automático: numa xícara, café e leite sem lactose; na outra, leite magro e chocolate amargo. Um pote de cereais e banana cortada em moedas; um sanduíche de pão integral com os frios do momento. Yakult, água no fogo para cevar o mate. Em minutos ela descerá e, com os olhos, perguntará se está bonita. Quando chega, ela ganha o café e o elogio, não necessariamente nesta ordem. O sorriso oferecido na troca recompensa o fato de ser segunda-feira.

Ou:

– Diante da tela em branco, abre-se um vácuo entre o tanto a dizer e o tudo que já foi dito. Ele acende uma vela imaginária aos mestres cronistas do passado e pede para honrar a missão do gênero. Traz consigo uma cena do dia anterior: ao cruzar pela cancha de areia do condomínio, encantara-se saudoso ao escutar um menino narrar sua própria jogada. Intui que há lições a extrair disso: toda vida é sublime ao ser vista pelos olhos da fantasia. Seja domingo. Seja segunda-feira.

Crônica publicada no Metro Jornal em 07.02.17

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