Rubem Penz

Ninguém durma! Ninguém durma!

Tu também, ó sutil empresário. Em teu potente jatinho olhas propinas que se justificam com esperteza e ganância. Mas o teu mistério está fechado em mim – o meu nome ninguém saberá, não, não… Sobre suposta culpa direi apenas quando a Polícia Federal apertar nosso colarinho (branco).

Ninguém durma, também tu, ó esperto doleiro. Em teu refrigerado escritório olhas moedas estrangeiras que circulam velozes, silenciosamente. Mas o teu mistério está fechado em mim – o meu nome ninguém saberá, não, não… Sobre suposta culpa direi apenas quando vier a Interpol com seus relatórios.

Ninguém durma! Ninguém durma!

Tu também, ó ilustre deputado. Em teu sinistro gabinete olhas as vantagens que se articulam com vil desfaçatez. Mas o teu mistério está fechado em mim – o meu nome ninguém saberá, não, não… Sobre suposta culpa direi apenas se o Poder Judiciário ferir nosso calcanhar (de Aquiles).

Ninguém durma, também tu, ó diligente operador. Em teu luxuoso automóvel blindado olhas conexões que reproduzem relações espúrias. Mas o teu mistério está fechado em mim – o meu nome ninguém saberá, não, não… Sobre suposta culpa direi apenas quando tudo souber a Receita Federal.

Ninguém durma! Ninguém durma!

Tu também, ó fiel tesoureiro. Em tua laboriosa sede partidária olhas acordos que deixaram de refletir princípios para alcançar sórdidos fins. Mas o teu mistério está fechado em mim – o meu nome ninguém saberá, não, não… Sobre suposta culpa direi apenas quando a Justiça Eleitoral chegar além de nossas contas.

Ninguém durma, também tu, ó solitária princesa. Em teu frio palácio olhas alianças que oscilam entre traições e falsidade. Mas o teu mistério está fechado em mim – o meu nome ninguém saberá, não, não… Sobre a corte falarei apenas quando chegar a hora, caso tal hora chegue. Por enquanto, meu beijo escolherá o silêncio que te faz minha (refém).

E há um nome que ninguém saberá. E nós deveremos, infelizmente, morrer por ele. Desvaneça a noite! Desapareçam estrelas! Desapareçam estrelas! A alvorada vencerá. Vencerá! Vencerá?

Crônica publicada no Metro Jornal em 22.09.2015

 

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