Rufar dos Tambores

Número 223

A MARAVILHA ERRADA

 

Até poucos dias atrás, quando alguém creditava a si um valor imenso, desproporcional, argentino, dizia-se: O cara – ou a menina – se acha a oitava maravilha do mundo! A má notícia é o rebaixamento dos megalomaníacos ao pouco honroso décimo quinto lugar, pois foram eleitas mais Sete Maravilhas.

 

As primeiras Sete, as Maravilhas do Mundo Antigo, não foram propriamente eleitas, e sim listadas. Bom, isso até onde se saiba. Ao menos jamais foram encontrados, em algum sítio arqueológico, panfletos com as inscrições “Vote Rodes”. A intenção, à época, foi indicar obras magníficas, erguidas pela engenharia humana, todas fundamentais para serem conhecidas e reverenciadas. O turismo, já na Antiguidade, era uma fonte de riqueza.

 

Hoje, no Mundo Moderno e democrático, a fundação New Seven Wonders organizou um concurso para listar as novas Maravilhas. Tal qual uma planetária votação de Miss Escolar, cada família se mobilizou para angariar votos para a sua maravilhazinha querida, considerando-na mais maravilhosa do que a do outro país. O prêmio desta gigantesca quermesse é a esperança de eternizar a sua obra e faturar com os turistas. Muito nobre!

 

Terminada a votação, nenhuma surpresa: O Brasil colocou o Cristo Redentor entre as Sete. Somos bons nisso de eliminar e escolher. Treinamos bastante com o Você Decide, o Big Brother Brasil, o Ídolos, a Dança dos Famosos etc. Pediu para ligar, mandar torpedo ou entrar na Internet, o brasileiro – aquele que é o melhor do Brasil – atende. Justo agora, no momento em que nunca na história deste país aconteceram tantas coisas, o monumento do Corcovado ficar de fora seria um golpe fatídico em nossa auto-estima. Aleluia! Cristo Redentor é cada vez mais imortal! Quase um Grêmio.

 

Na minha particular opinião – e correndo o risco de parecer antipático –, ao compararmos com outros concorrentes, o querido Redentor de braços abertos para a Guanabara é como a Miss Japão: Vence sem convencer. Porém, como se diz no futebol, o que vale é taça no armário e faixa no peito! Os franceses e sua Torre Eiffel tratem de se conformar. A Liberdade dos americanos do norte e a Acrópole grega que se mordam. Que todos os castelos e catedrais da Europa lambam suas feridas. Turistas dispostos a relaxar e gozar, venham a nós! E Cristo ilumine os controladores de vôo.

 

Mas, quem tem todos os motivos do mundo para estar com dor de cotovelo é a cidade de Brasília. Não entendo como a Capital Federal pode ter perdido para o lobby carioca a indicação brasileira no tal concurso. Afinal, desde os Jardins Suspensos da Babilônia, nenhum outro conjunto arquitetônico conseguiu pairar lindo e incólume (impune?) sobre a realidade cruel. Brasília, ela sim, é uma verdadeira Maravilha: Prédios suntuosos nos quais o concreto flutua e o dinheiro evapora. Quanta injustiça…

 

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