Rufar dos Tambores

Número 229

A COMISSÃO

 

Atualmente, a população humana está na casa dos bilhões, e não pára de crescer. Por isso, mesmo reconhecendo a onipotência Divina, desconfio que o Todo Poderoso está recorrendo a uma Comissão para auxiliar na tarefa de criar homens sempre inéditos e particulares. Algo como uma equipe de cinema, cada um com uma especialidade. Ao menos essa seria uma explicação convincente para os diferentes talentos e vocações de cada um.

 

Os homens criados sob forte influência dos roteiristas, por exemplo, seriam aqueles que sempre sabem o que dizer. Comediantes natos, políticos rápidos, sedutores incorrigíveis, os filhos dos roteiristas são aqueles que têm as respostas na ponta da língua. Sempre com os melhores argumentos.

 

Está com inveja? Pois, que tal os descendentes dos diretores: além de dominarem o texto, capricham no timing e na entonação. Nasceram para estar no comando. São tão convincentes e ensaiados, que passam para os outros a idéia de que tudo está sendo filmado o tempo inteiro. Nunca são pegos de surpresa: vivem em um constante déjà vu.

 

Os homens que nascem da cabeça dos figurinistas têm muito estilo. Não importa se são neohippies, pósyuppies, prépunks: tudo o que vestem lhes cai bem. No inverno ou no verão, para festas ou no trabalho, eles estão corretíssimos e atraem os olhares. Quando ficam em crise total, parados defronte ao closet (sim, guarda-roupa é para os outros), o que fazem? Ditam uma nova tendência de moda.

 

Quando brota das pranchetas dos diretores de fotografia, o camarada se parece com um camaleão. Não tem um estilo: tem todos. Com isso, fica como que mimetizado ao ambiente, circulando como se fosse o detalhe que faltava para compor o quadro. Dificilmente chama a atenção para si. Nem por isso deixa de ter a importância reconhecida. Afinal, carrega consigo o poder da harmonia.

 

Peculiar, também, é o destino de quem se origina das planilhas dos produtores. Estas pessoas não são charmosas, não falam bem ou chamam a atenção com facilidade. Em compensação, sabem lidar com a informação como ninguém. E, captando recursos de toda a ordem (monetário, material e humano), fazem de si alguém de inestimável utilidade. E, é claro, de muita influência.

 

Os homens que são criados pelos financiadores são conhecidos pelo apelido carinhoso de “filho do homem”. Provêm de contas numeradas de bancos estrangeiros e, muito família, delas nunca se desligam. Não são charmosos, ou articulados, ou líderes. Nem precisam ser. Ricos, espertos e ríspidos, não encontram dificuldade em exercer o mais feroz dos poderes: o monetário.

 

Mas, como falei, estamos na casa dos bilhões. E, por mais roteiristas, diretores, figurinistas, diretores de fotografia, produtores e financiadores que estejam supostamente trabalhando na Comissão do Criador, jamais dariam conta de tantas tarefas. Então, se você não tem o dom da palavra, o charme que todos invejam, a presença de espírito, muita grana ou outras qualidades descritas acima, faça como eu: conforme-se em ter sido projetado por um estagiário.

 

Sim, na Comissão, há milhares deles.

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