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O REINO DESENCANTADO

 

Alice desobedeceu à mãe, que sonhava em preservar sua inocência mais um pouco, e se debruçou sobre a fonte das notícias. Um vacilo e, oh!, despencou no poço que, diziam, era sem fundo. A menina, já adolescente, caiu, caiu e caiu… Na medida em que rumava para baixo, porém, a gravidade parecia diminuir mais e mais. Bizarro!, pensou.

 

Deste modo, enquanto descia quase a flutuar, olhava para os lados e via coisas estranhas: prédios de apartamentos desabavam sem gravidade; escândalos governamentais se sucediam sem gravidade; centenas de assassinatos eram cometidos todos os anos sem gravidade; o trânsito matava mais do que uma guerra sem gravidade; o tráfico de drogas acontecia a céu aberto sem gravidade; aviões escorregavam nas pistas (ou se chocavam no ar) sem gravidade; vândalos pichavam e depredavam monumentos, praças, paradas de ônibus, prédios públicos e privados. Tudo e muito mais sem a menor gravidade. E assim foi caindo, caindo e caindo em si.

 

Quando a menina chegou ao fundo do poço – sim, era mentira: a fonte sempre tivera um fundo de verdade – pousou suavemente no Reino Desencantado. Embora parecesse ter descido ao inferno, tamanha distância que percorrera do mundo anterior – vamos denominá-lo de primeiro mundo – o Reino Desencantado se igualava ao lugar onde Alice sempre vivera. Erguia os olhos e sentia os efeitos do buraco na camada de ozônio; dos rios vinham os odores da poluição; das matas o zoar das serras; olhava para os valores e os via em franca degradação. Bandidos tratados como heróis e vice-e-versa.

 

Mas, qual a diferença? No tal reino, tudo era o mais perene desencanto. Ele se refletia nos olhos das pessoas que por ela cruzavam. Pairava no ar como um sentimento de impotência, ou uma falsa idéia de que sempre fora assim mesmo, ou uma dúvida sobre quando, como e por que reagir. Em contrapartida, líderes se adiantavam em dar explicações: conversa fiada que não aplacava o desencanto reinante. Logo Alice passou a viver, ela própria, desta forma. Um dia, conheceu um rapaz que lhe sorria tímido, verdadeiro príncipe desencantado, e com ele se casou.

 

Quando Esperança nasceu, Alice viu no primeiro olhar da filha um raro manancial de perspectivas. A criança era, sem dúvida, um encanto só. É sempre assim quando nascem, dizia um. Não, respondia Alice, vejo muitos bebês já desencantados nas ruas… Alice e o príncipe cuidaram de preservar o encanto da Esperança, convidando muitas fadas madrinhas para o batismo. Mas os Correios estavam em greve e não entregaram o convite para a fada Ética, que vivia exilada do Reino Desencantado. Ela ficou ofendida por continuar excluída e reeditou, feito uma Medida Provisória, sua maldição: enquanto não a chamassem de volta, trataria de manter aberta a fonte das notícias. Poço que, no futuro, consumiria a Esperança.

 

Passaram-se os anos. Alice recomendava todos os dias para que a encantadora filha andasse do condomínio para a escola, ficando longe daquele maldito poço aberto. Até que uma vez, mocinha, Esperança desobedeceu à mãe. Curiosa, debruçou-se sobre a fonte e, oh!, um vacilo…

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