Rufar dos Tambores

Número 378

EXPLORANDO A CAMADA PRESSÁGIO

Em vinte de abril, ao explodir a plataforma marítima de extração de petróleo Deepwater Horizon, teve início aquele que já se inscreve como o maior desastre ambiental da história norte-americana. A mancha de óleo que devasta uma área gigantesca do Golfo do México acarreta um prejuízo na ordem dos milhões de dólares para a empresa British Petroleum (BP), mas de incalculável repercussão para o meio ambiente. Em virtude de um vazamento que pode bater na casa dos 60 mil barris por dia, e que já dura quase três meses, verdadeiras operações de guerra se instauraram na região, envolvendo toda a comunidade científica, em busca de um modo de estancar a fuga de óleo. Paralelamente, esforços de mesma proporção visam dirimir seus efeitos maléficos, recolhendo o óleo derramado, impedindo que a mancha se alastre e salvando os animais já vitimados.

Nossa brasileiríssima Petrobras é reconhecidamente uma das mais competentes empresas multinacionais dedicadas à prospecção e exploração de petróleo em águas profundas. No mais recente êxito de suas pesquisas, foram descobertos mananciais expressivos de óleo na altura da camada pré-sal. Em razão disso, para breve nosso país poderá fazer parte do seleto grupo dos grandes produtores de petróleo. No momento, claro, em que a tecnologia permitir a extração desta riqueza ‒ algo que está a caminho, com certeza. Com tanta tradição e conhecimento, era de se esperar que os engenheiros, técnicos e cientistas brasileiros estivessem assessorando de alguma forma os apavorados ingleses por conta do desastre da Deepwater Horizon. Imaginei a manchete: jeito brasileiro impede catástrofe ambiental. Como não tenho notícias de nada relevante neste sentido, fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Sempre que estou sobre uma ponte, bendigo os engenheiros. Diante de uma plataforma marítima de exploração de petróleo, então, só me falta propor a canonização destes profissionais. Construções que em tudo se assemelham àquelas idealizadas por escritores de ficção científica, tais plataformas abrigam o que há de mais avançado em termos tecnológicos. Também são locais em que se trabalha com níveis de segurança notáveis, respeitando normas rígidas no que diz respeito à prevenção de acidentes. Sou fã incondicional dessa turma! Porém, mesmo com tudo isso, o desastre no Golfo do México acende uma luz vermelha a brilhar em nossa costa. Teríamos nós, brasileiros, recursos financeiros e humanos para fazer frente a uma tragédia de igual proporção? E os acionistas da Petrobras: aguentariam os prejuízos? Para o bem da natureza e para a felicidade geral da nação, gostaria que as respostas fossem que sim. A bem da verdade, temo que não.

Tais presságios não significam que um acidente abalará alguma de nossas plataformas petrolíferas, longe de mim! Muito menos causará um desastre ambiental comparável ao que estamos testemunhando na costa norte-americana. O problema é que, se acontecer, um país que deve ao povo investimentos adequados em educação, saúde, transporte coletivo, segurança e infraestrutura, terá cacife para fazer frente às demandas necessárias? O discurso de potência econômica emergente combina com as reais possibilidades de arcar com eventuais contratempos?

Confesso que estaria mais seguro se a comunidade científica brasileira concentrasse mais investimentos, competência e inventividade em fontes de energia ecologicamente limpas e seguras ‒ vento, sol, marés… Em um país continental, no maior depositário de água doce do planeta, para quem guarda verdadeiros tesouros em termos de biodiversidade, por tudo o que vem acontecendo em consequência da pesada mão do homem, valerá a pena correr tantos riscos investindo cada vez mais em uma matriz energética que deve ser abandonada? Faltam respostas: infelizmente, minha sondagem não é profunda o bastante para ultrapassar a camada presságio.

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