Rufar dos Tambores

O causo da mangueira assombrada

Número 488

Rubem Penz

O folclore brasileiro é riquíssimo em histórias. Muitas delas nascem mais perto da gente do que se supõe. Por exemplo, no caso (ou melhor, no causo) de existir uma mangueira assombrada lá para os lados de Santana do Livramento, fronteira do Brasil com o Uruguai. Quem conta essa passagem é o tio Darci, que não é meu parente, e sim do grande amigo João (outro João, não aquele do Lupicínio Rodrigues em Cevando o amargo).

Pois tudo aconteceu com o próprio tio Darci, que jura ser verdade. Exausto em uma tropeada longa, calhou de, numa tarde nublada, anoitecer mais cedo justamente próximo de uma mal afamada mangueira. Nenhum tropeiro pousava lá bem por isso: juravam ser assombrada. Pior, a aparição era de uma alma penada mulher, desejosa dos homens que paravam por aquelas bandas. Uma versão gaudéria do canto da sereia.

Metade pelo cansaço, metade por não acreditar em coisas do outro mundo, tio Darci acomodou a boiada, apeou do cavalo, acendeu o fogo e cevou o mate, desafiando a lenda. Chover, não chovia – ficava só na promessa. Promessa em forma de vento inconstante. No abandono do Pampa ali estavam, solitos, ele e os animais. Quem sabe na tutela do Nosso Senhor.

Quando escureceu de vez e o silêncio ficou interrompido só pelos soluços dos gravetos queimando, uma voz fugidia se fez notar, carregada por uma lufada do vento alquebrado: “Vem meu amor…”. Era baixinho, ainda que suficiente para intrigar o gaúcho. Tio Darci seguiu cuidando a panela que cozia o arroz de carreteiro. Outro ventar e novo convite: “Vem meu amor…”.  Caso sério. Sem dúvida, voz de mulher. Mulher bonita. E, por mais que o homem negasse a possibilidade, aquele melodioso convite prosseguia insistente: “Vem meu amor…”.

Chegara a hora de dividir o povo entre os que honravam suas bombachas e os covardes. E ele não estava disposto a cerrar fileiras com os que dali corriam como piás. Pegou o facão na mão direita, um lampião na esquerda e saiu atrás da voz. Primeiro, na direção da qual vinha o vento, para ver se este era o culpado. Que nada: dali, só o silêncio. Seguiu volteando feito ronda de milico até chegar num capão de árvores baixas. Era o lugar sombrio de onde vinha o convite: “Vem meu amor…”.

Pois bem certinho, sob um espinilho de copa baixa, não é que tinha um disco velho partido na metade, ainda daqueles de 78 rpm? Era bater o vento, sacudindo os galhos da árvore, e um dos espinhos corria num pedacinho do disco: “Vem meu amor…”. Cabe dizer que, mesmo em mau estado, deu pra ler o nome do fantasma: uma tal de Carmen Miranda.


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